Resenha – Pequenas Epifanias

Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu

“A perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)  – mas a morte é inevitável, e portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS  de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não se ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo – porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER”.


Você pode até não gostar de literatura, mas é improvável não ter tido contato com algum fragmento da obra de Caio Fernando Abreu, jornalista, escritor e por que não dizer poeta do cotidiano? Assim como Clarice Lispector, lidera o número de citações compartilhadas entre os usuários das redes sociais, e sua popularidade cresce à medida que outras gerações se aproximam de suas reflexões, que circulam livremente e amplamente no ciberespaço.

Devo confessar que as narrativas do escritor sempre me comovem, e em “Pequenas epifanias” não foi diferente.  O livro reúne crônicas que datam de 1986 a 1995 e abrange um período delicado da vida do autor, pouco antes de sua prematura morte em 1996. Talvez seja por esse motivo que os relatos refletem tanto a condição existencial do ser humano, as inquietações e as angústias que permeiam a trajetória de vida e o fim iminente: a morte.

Na minha opinião, o título revela a essência contida em todas as crônicas, ou seja, os pequenos “milagres” e “mistérios” do cotidiano, manifestações corriqueiras dotadas de possibilidades de entendimento do ser e da vida. “Epifania é a expressão religiosa empregada para designar uma manifestação divina. Por extensão é o perceber súbito e imediato de uma realidade essencial, uma espécie de iluminação”.

De modo geral, o homem está fadado a sua rotina particular, e a regularidade das ações tende a ocultar ou minimizar o significado das coisas, a descoberta e o entendimento de verdades ocultas em realidades explícitas.

Romântico e delicado, visceral e impiedoso, engraçado e irônico, assim é Caio F. em suas narrativas e talvez o segredo para a construção de textos tão irresistíveis esteja justamente na transição repentina de humores e olhares, mesclando momentos de extrema lucidez e pura divagação.

Ri com a crônica “Deus é naja”. “Estás desempregado? Teu amor sumiu? Calma: sempre pode pintar uma jamanta na esquina”. Humor dark sim, mas é daí?  O importante é não perdê-lo. “[..] esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feio idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada”.

Em “A mais justa das saias” é possível regredir no tempo e vivenciar o período de medo e confusão social com o surgimento da AIDS, a falta de informação que propagava todo o tipo de absurdo e preconceito, ao que o autor desabafa “Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus – a AIDS psicológica. Do corpo, você sabe, tomados certos cuidados, o vírus pode ser mantido à distância. E da mente? Por que uma vez instalados lá, o HTLV-3 não vai acabar com as suas defesas psicológicas, mas com suas emoções, seu gosto de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se”.

Dentre tantas crônicas, um destaque aos “Extremos da paixão” e a problemática do amor, “Pálpebras de neblina” e a desolação da prostituta comparada a descrença no Brasil, “Quando setembro vier” e a invenção de um mundo cor de rosa, “Agostos por dentro” e a consciência de não pertencer a um contexto.

Um livro para ser digerido aos poucos, indicado pra quem gosta de leituras breves, mas não superficiais, um convite ao pensamento e à reflexão da vida e do cotidiano passado, presente e futuro.

Caio Fernando Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, em 1948 e morreu de Aids em Porto Alegre em 1996. Em 1968 mudou-se para São Paulo e começou a trabalhar na grande imprensa. Morou ainda no Rio de Janeiro, Estocolmo e Londres, publicou 11 livros, tendo sido premiado duas vezes com o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Dentre os títulos podemos citar: “Morangos mofados”, “Limite branco”, “O ovo apunhalado”, “Os dragões não conhecem o paraíso”, “Triângulo das águas”, “Pedras de Calcutá”, entre outros.

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

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