Resenha – A solidão dos números primos

A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

“Os anos de colégio foram como uma ferida aberta, que pareceu tão profunda a Alice e Mattia a ponto de nunca mais poder cicatrizar. Atravessaram aquele período em apnéia, ele recusando o mundo, ela sentindo-se recusada pelo mundo, e perceberam que não fazia grande diferença. Tinham construído uma amizade defeituosa e assimétrica, feita de longas ausências e muito silêncio, um espaço vazio e limpo em que ambos podiam voltar a respirar, quando as paredes de escola ficavam muito próximas, para ignorar o sentimento de sufocamento.”

Foi amor à primeira vista! Sei que não se deve julgar o livro pela capa, mas em algumas ocasiões é quase impossível resistir. Confesso que com “A solidão dos números primos” não tive dúvidas na escolha, a delicadeza da imagem e a sutileza do título representaram a promessa de uma história envolvente. Uma obra poética, intensa e comovente, onde beleza e dor ocupam o mesmo espaço. No romance, a solidão é fio condutor dos encontros e desencontros protagonizados por Alice e Mattia.

Vidas paralelas que se aproximam no deslocamento e desajuste com o mundo. Na infância uma tragédia particular marca o corpo e a mente de ambos. Mattia convive com a culpa por ter abandonado a irmã gêmea, sendo que o desaparecimento da criança desencadeia no garoto um comportamento arredio e autodestrutivo. Alice, após sofrer um acidente de esqui que a deixa manca, tenta disfarçar a insegurança e esconder da família a anorexia. Ela se refugia na fotografia e ele na matemática. Ela tenta se ajustar ao mundo enquanto ele recusa qualquer tentativa de adaptação. No desvio de interesses, o encontro e o reconhecimento.

“Porque Alice e Mattia estavam unidos por um fio elástico e invisível, encoberto por um monte de coisas sem importância, um fio que podia existir apenas entre pessoas como eles: dois que reconhecem a própria solidão, um no outro”. Dos tempos de colégio à vida adulta estabelecem uma relação bastante singular. Parceiros, mas incapazes de transpor a barreira oculta que os separa, tal como os números primos. “Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade”.

A base da relação é também o seu ponto frágil, o isolamento social e a vulnerabilidade emocional que os aproxima também representa a maior lacuna no relacionamento. No cenário desfilam personagens complexos, mas que são facilmente identificados em nosso cotidiano, indivíduos que apesar da aparente estabilidade e auto-suficiência muitas vezes ocultam traumas que causam desconforto, sofrimento e dor. Basta observar: vivem em desacordo com o mundo e consigo mesmo, em permanente estado de fuga, são muitas vezes negligenciados pela família, invisíveis e indiferentes à sociedade.

A narrativa apresenta a evolução cronológica dos personagens: infância, adolescência e juventude (1987-2007), bem como as dificuldades, as angústias e o sentimento de inadequação que os acompanha em cada fase. Uma história triste, mas bela. Não recomendado aos fãs de contos de fadas. Paolo Giordano impressiona em sua estréia como escritor, usando a matemática como metáfora da vida, e desenvolve um relato extremamente sensível. O autor foi aclamado pela crítica e conquistou importantes prêmios literários na Itália. Em 2010 a história foi adaptada para o cinema com o mesmo título. Agora é correr pra locadora e conferir!

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

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8 pensamentos sobre “Resenha – A solidão dos números primos

  1. Pingback: Biblioblog Unesp Bauru

  2. Lucilene,
    admirável a forma como vc. escreve… dá gosto de ler… é simples e sofisticado ao mesmo tempo! Parabéns!
    Maristela

  3. Olá querida Lucilene, você é dez mesmo.
    Maravilhosa resenha, vou ler o livro.
    Beijos…
    Maria Thereza
    sua amiga

  4. Olá!
    Sua resenha me deixou com vontade de ler este livro!!

    Aliás, resenha muito bem escrita, parabéns!

    abç.
    Maria Mariano

    • Maria Mariano, que bom que gostou. Toda primeira sexta-feira do mês uma nova resenha de um dos livros do nosso acervo. Divirta-se.

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