Resenha – De veludo cotelê e jeans

De veludo cotelê e jeans, de David Sedaris

“Fiquei obcecado com Philip, que era bibliotecário numa faculdade, em algum lugar do Meio-Oeste. “Ele é tão parecido com você”, dizia minha mãe. “Adora ler. Ama os livros”. Eu não adorava ler tanto assim, mas tinha convencido minha mãe do contrário. Quando ela me perguntava o que eu tinha feito a tarde inteira, eu nunca respondia “Ah, estava me masturbando”, ou “Imaginando como o meu quarto ficaria pintado de vermelho”. Sempre dizia que tinha passado a tarde lendo, e ela sempre acreditava. Nunca me perguntava o nome do livro, nem onde eu tinha conseguido, só respondia “Ah, que bom”.”

A leitura da crônica autobiográfica me rendeu boas risadas, com estilo ácido e jocoso o autor nos faz mergulhar nas excentricidades de sua família, não nos poupando dos detalhes mais sórdidos. É como se você estivesse olhando pelo buraco da fechadura ou revirando as gavetas de uma família aparentemente normal, mas que oculta comportamentos absurdos e pouco louváveis.

David Sedaris nos presenteia com uma infinidade de situações hilárias, desde o jogo de strip poker com os garotos do bairro e a dificuldade em disfarçar a excitação ao vê-los nus, até os fatos mais bizarros vivenciados na fase adulta, quando ao visitar a irmã é obrigado a faxinar o apartamento, tamanha imundice e desordem do lugar.

Revelando a sua condição homossexual, o autor expõe completamente a sua intimidade, compartilhando suas neuroses e inseguranças.  Com uma pitada de humor, sarcasmo e autodepreciação nos faz rir e nos comover com os seus relatos pessoais.

As esquisitices que rondam a família são esmiuçadas em detalhes. Os pais são propensos à ostentação e vivem em constante fuga da realidade. Os irmãos protagonizam cenas surreais, tal como a irmã que aos catorze anos coloca aparelho nos dentes e tenta arrancá-los com um alicate, ou o irmão que devora os alimentos congelados direto da embalagem, comendo com prazer os restos da lata de lixo.

A rotina e o cotidiano da família são descritos sem pudores e sem monotonia, envolvendo o leitor em acontecimentos esquisitos e engraçados.  Leitura mais que recomendada aos apreciadores de relatos breves, leves e divertidos.

David Sedaris é um dos maiores humoristas americanos da atualidade e autor dos livros “Pelado”, “Eu falar bonito um dia” e “Engolido pelas labaredas”, crônicas similares, que reúnem os fragmentos do cotidiano pessoal e familiar. Como o autor se descreve em uma das passagens do livro. “Na minha cabeça, sou como um lixeiro amigável, construindo coisas a partir de pequenos fragmentos que recolho aqui e ali, mas minha família começou a ver as coisas de outra maneira. Os tais pequenos fragmentos que recolho com ar descuidado são suas vidas pessoais, e eles estão ficando fartos. Cada vez mais, as histórias que me contam iniciam sempre com o frase “Você precisa jurar que nunca vai passar isso adiante”. Eu sempre juro, mas todo mundo já sabe que minha palavra não significa nada”.

Eu o definiria como um fofoqueiro do bem, se é que isso é possível…

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

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