Resenha – Indignação

Indignação, de Philip Roth

“Cresci cercado de sangue e sebo, afiadores de facas, máquinas de fatiar e dedos amputados em parte ou por inteiro nas mãos de meus três tios, assim como na de meu pai – e jamais me acostumei com isso, jamais gostei disso […] Como ateu, presumi que na vida após a morte não haveria um relógio, um corpo, um cérebro, uma alma, um deus – nada, em qualquer forma ou substância, a decomposição reinando absoluta. Não sabia que existia a lembrança e muito menos que a lembrança seria tudo”


Não consigo imaginar título mais adequado. “Indignação” – breve, intenso e incômodo, assim como o enredo. Esse sentimento que acompanha o personagem durante várias passagens da sua vida, também foi o meu ao término da leitura. Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário, envolve a ponto de provocar raiva, tristeza, solidariedade, e é claro, indignação. Apesar da morte anunciada logo no início da narrativa, confesso que fiquei frustrada, esperava um fim menos trágico. Se a intenção do autor era impactar o leitor, devo dizer que cumpriu com maestria o seu papel.

A trama se passa em 1951, período em que os Estados Unidos estão em Guerra com a Coréia. Marcus, o jovem desafortunado, é filho de um açougueiro, rapaz simples e de origem judia, divide o tempo entre o estudo, o trabalho e a prática de esportes. Assim como a maioria dos jovens, deposita nos estudos a única esperança de escapar de um destino implacável, cruel e previsível à maioria dos indivíduos com a sua condição étnica e social: assumir o ofício do patriarca ou ser recrutado na Guerra.

O primeiro membro da família Messer a ingressar na universidade, Marcus é o orgulho dos pais, mas também o responsável por desencadear uma crise familiar. O excesso de zelo do pai, que teme pelos perigos que a vida adulta pode representar ao filho, acua e sufoca o adolescente. Por fim, ele decide fugir do controle absurdo matriculando-se em uma universidade distante de casa. Essa decisão transforma drasticamente sua vida.

A convivência forçada e pouco amistosa com os companheiros de quarto, as constantes humilhações vivenciadas no trabalho, o envolvimento com Olívia, garota que apresenta um comportamento destoante para a época e a perseguição por parte do diretor são alguns dos obstáculos que ele deverá superar. Em meio a conflitos, Marcus sentirá o peso da intolerância e do desrespeito, lutando inclusive com os próprios preconceitos.

Ao conhecer Olívia, com quem teve sua primeira experiência sexual, ele fica dividido, deseja assumir a garota, mas ao mesmo tempo está assustado, além de ostentar uma cicatriz no pulso, resultante de uma tentativa de suicídio mal sucedida, a jovem se entrega aos seus desejos do corpo, o que é severamente condenado pela sociedade.

Além disso, trava uma luta com o diretor da universidade, sujeito arrogante que se sente no direito de interpelá-lo por considerar as ações do jovem uma afronta ao sistema adotado na universidade. Marcus prefere o isolamento às relações hipócritas e superficiais estabelecidas pela maioria dos estudantes, tudo o que ele desejava era que o deixassem em paz.

Mas na tentativa de esquivar-se dos problemas ele os atrai em proporções cada vez maiores. Talvez o esgotamento por tantas fugas e a constante opressão o transforma em um sujeito cheio de ira. Inconformado com a conduta intransigente do diretor, que não satisfeito com suas boas notas, tenta confrontá-lo, Marcus sela seu destino ao “vomitar” toda a sua indignação. Como julgá-lo? Difícil manter-se calado diante de tanto abuso e desrespeito. Ninguém deve ser condenado ou julgado simplesmente por não seguir a massa, por pensar diferente ou por agir conforme os seus princípios, dispensando a cartilha escrita por um opressor, esteja ele representado pela figura de um pai, diretor, ou quem quer que seja. Fugir dos problemas ou enfrentá-los, qualquer que seja a decisão demanda coragem. Coragem pra assumir as consequências, que injustas ou não, uma hora se apresentam.

Marcus poderia ter um destino diferente, mas suas decisões mudaram o rumo da sua história. Estamos condicionados às nossas escolhas, que, por mais banais que possam parecer, são determinantes para o nosso sucesso ou fracasso. Apesar de tudo não considero Marcus um personagem covarde ou inconsequente, apenas um sujeito comum que não desejava outra coisa senão seguir o seu próprio caminho, mas foi afugentado, influenciado e condenado por mentes conservadoras e tacanhas.

Interessante destacar que o primeiro capítulo do livro se intitula “Sob o efeito da Morfina” o que já anuncia a morte prematura do personagem. A primeira parte é escrita em primeira pessoa, aparentemente o próprio Marcus torturado pelas lembranças de sua breve vida. Ao término quem assume a tarefa é um narrador, atestando a morte do personagem. Apesar de triste, um livro belo à sua maneira.

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

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2 pensamentos sobre “Resenha – Indignação

  1. Olá, muito boa a resenha, como sempre. Sugestão: colocar alguns dados do autor, para que nós leitores, nos situemos no contexto de seu tempo e país.

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