Resenha – O Caderno Azul

O Caderno Azul, de James A. Levine 

Minha mãe sempre me espancava porque minha resistência era grande demais. A palma vermelha de sua mão batia na minha cara com tal veemência que eu achava que podia quebrar meu pescoço. Antes de uivar de dor desses ataques frequentes, eu tentava reprimir o grito, porque queria fortalecer minha capacidade de morar dentro de mim mesma. Hoje em dia, os golpes não são com a mão de mamãe aberta e vermelha de hena, mas do bater dos quadris dos homens nos meus. Mas minha mãe me treinou bem, porque agora eu vivo dentro de mim.”

O romance de estréia do médico James A. Levine, embora fictício, revela nuances de uma realidade tão sórdida e cruel, que muitas vezes temos a sensação que a personagem extrapola as páginas do livro, dando voz a inúmeras crianças vítimas de exploração sexual.

A narrativa explora o cotidiano de Batuk, indiana que aos 9 anos foi vendida pelo próprio pai como escrava sexual. O destino da criança muda sensivelmente ao ser arrancada do convívio familiar em uma aldeia da Índia, para se submeter a todo tipo de ultraje e humilhação nas ruas de Bombaim, onde a prostituição ocorre escancaradamente.

Abusada física e psicologicamente, a adolescente presencia todo o tipo de miséria humana. Tendo a infância roubada e a existência reduzida a mero objeto de prazer, seu único alento está na posse e na escrita de um caderno azul, um misto de diário e refúgio. Nas páginas do caderno a garota registra com muita sensibilidade seus sonhos, devaneios, pensamentos, lembranças e a percepção de uma realidade difícil, mas suportável, à medida que as ações do cotidiano são revestidas de outros significados.

A delicadeza da capa contrasta com a estória triste, inquietante e repulsiva que se anuncia ao leitor. Confesso que em algumas partes da narrativa foi preciso autocontrole para não abandonar a leitura, não pela qualidade da escrita, mas pela aspereza do conteúdo. É doloroso pensar que um ser humano, sobretudo uma criança, tenha que se submeter aos caprichos de mentes perversas e doentias, e que esses abusos não dilaceram apenas o corpo, mas a alma.

Mas apesar do cenário triste e desolador, é uma história repleta significados belos e sutis, tais como a importância da amizade verdadeira, perceptíveis na cumplicidade que se estabelece entre Batuk e Punnet que compartilham as mesmas dores e sofrimentos, e especialmente o poder da imaginação para combater e afastar os males de uma realidade dura e cruel.

Não é o primeiro relato que aborda a fantasia como válvula de escape ou ponto de fuga em um mundo de horrores, em “A menina que roubava livros”, a leitura foi a “salvação” ou a fórmula encontrada pela personagem para suportar a uma realidade difícil.

A leitura e a escrita podem ser mais do que instrumentos para se adequar ao mundo, às vezes é um meio de fuga saudável, algo em que se apoiar para se manter vivo e lúcido!

Esse é o primeiro romance de James A. Levine, médico americano que em viagem a Ìndia se impressionou com uma jovem prostituta que escrevia absolutamente concentrada em um caderno. A cena o marcou tanto a ponto de escrever “O caderno azul”. 

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

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Um pensamento sobre “Resenha – O Caderno Azul

  1. Adorei a resenha, muito bem escrita.De uma sensibilidade tal que me leva a querer ler o livro. Parabéns pela inciativa!

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