Experiência de leitura: Harry Potter por um não-fanático

Sentados em nossas cadeiras, encantados com um mundo que nos entedia, precisamos de um pouco de imaginação para sentirmos nossa realidade. E J.K. Rowling nos apresenta Harry Potter.

É tão fácil simpatizarmos com Harry quanto rejeitarmos seus tios, os Durleys, pessoas tão presas ao cotidiano, que repudiam, que literalmente fogem das diferenças, do que pode se tornar especial. É uma experiência comum querer ser especial, querer mudar a vida e ser reconhecido pelo que é. Harry Potter consegue isto, e logo consegue também nossa identificação.

Queremos ver o que ocorrerá com este personagem que vai se revelando um herói de aspectos clássicos, passando por várias fases para aceitar seu papel em seu mundo. Ver como o menino Harry se tornara o mago predestinado a salvar todos. Ver como é a escola de magia Hogwarts como ela prepara para um mundo em que é banal fotos se mexerem e magia existir. Um mundo paralelo ao nosso, como sonhos que já tivemos. Para isto é essencial vermos as pessoas que estão mais próximas dele, que fazem a historia junto com ele.

Fotografia apresentando os sete livros da coleção Harry Potter lado a lado sobre uma mesa.

A Biblioteca possui os sete livros da saga em seu Acervo.

O encontro e o desenvolvimento das relações com Rony, que tem um caráter impulsivo guiado pelos sentimentos, e Hermione, que agindo com a razão tem a busca de conhecimento como direção, tornam este trio de personagens fascinante e eficiente dentro da história.

Suas aproximações, afastamentos, escolhas, conflitos e experiências dão ao leitor de uma maneira efetiva o desenvolvimento por que cada um passa durante a história, ampliando a profundidade com que podemos encarar o enredo. Interessante notar que este trio é ligado também por seus estigmas que os acompanham desde o nascimento. Rony é marcado por sua pobreza; Hermione pelo seu nascimento em uma família não pertencente aquele universo, e Harry pela fama e destino de seus pais.

Estas ligações que evoluem de maneira a solidificarem uma amizade, mostrando-se dinâmicas durante toda a saga a ponto de guiar e influencias as outras formas de relacionamento apresentadas pela autora. Vejamos como exemplo Draco Malfoy, um dos antagonistas de Harry, em cujas relações pessoais, demostra dominação e busca por um superioridade que considera inata e que evolui para a submissão e o caráter solitário e incômodo das relações de poder.

Se esta dualidade Draco x Harry permite o confronto entre amizade e submissão no aspecto pessoal, em um âmbito mais geral, diversas oposições guiam o desenvolvimento narrativo.  Consideremos as duas casas principais apresentadas: enquanto a Sonserina (grupo ao qual pertence a maioria dos antagonistas) é definida  pelo seu apresso aos direitos hereditários e a busca de poder, a Grifinória (casa da maioria dos protagonistas) é definida por sua coragem e ousadia.

Sendo a oposição o elemento que propicia o andamento da história a escolha das características do vilão é fundamental. Lord Voldemort surge neste contexto como uma antítese funcional, coerente e muito bem desenvolvida do herói. Partilha com este características como a falta de família e a descoberta de ser especial, enquanto diverge em aspectos tão fundamentais que chegam a ser quase complementares, como a busca do poder pelo medo, a negação da morte, o uso de qualquer meio para atingir seus fins, a procura pelo isolamento, e a rejeição da história pessoal, que em momentos decisivos são contrastados pelas atitudes tomadas por Harry Potter.

Um elemento narrativo básico que mantém crescente o interesse em toda a obra são as relações que encontramos entre os medos, alegrias, dúvidas, conquistas e decepções de vários personagens e de nós mesmos. As dificuldades de manter amizades, de ser acreditado, de dar os primeiros passos em uma relação romântica, de se sentir só, de lutar para ser aceito, de conseguir uma vitória ou ver seus esforços terminarem em derrota estão bem descritas ali.

Durante a saga, vários personagens permitem ao leitor evocar situações que estiveram presentes durante seu próprio desenvolvimento pessoal. Como não ter conhecido ao menos alguém que tenha algo da arrogância de Snape ou o convencimento vazio do Professor Lockhart? Como não ter visto alguém que se define pela sua estranheza como Luna  Lovegood? E como não sentir um pouco de pena da solidão que esta estranheza provoca?

Vários personagens cativantes são apresentados até o ultimo livro e acrescentam dinamismo à história e fazem querermos aprofundar um pouco mais no entendimento de cada um deles.

Aprofundar-se no entendimento é também uma força motriz durante o desenvolvimento das ações. Para entender seu mundo, para poder agir, Harry deve conhecer, deve procurar sempre os fatos que originaram as situações pelas quais passa. Nisto acaba descobrindo de coisas banais a conhecimentos dolorosos sobre si mesmo e sobre aqueles que idolatra. O mundo dos magos não é plano. E não é a toa, que quase sempre os personagens estão na escola, um espaço de descoberta e um cenário conhecido pelos leitores.

Os leitores de Harry Potter, em especial aqueles que leram a série a medida que os livros foram lançados, puderam senti-lo crescer enquanto eles próprios cresciam, adquiriram experiência juntos, como se um amigo estivesse partilhando sua história com eles. E os mais observadores puderam ver também o desenvolvimento da escrita de J. K Rowling.

A cada livro é notável o progresso que autora alcança. As cenas melhoram, cada livro vai apresentando seu tom e vai crescendo o equilíbrio entre as ações e a descrição das emoções. Mesmo capítulos mais engraçados apresentam outros sentimentos, assim como o humor está presente em momentos mais dramáticos de forma adequada.

Embora possam ser citadas elementos incômodos durante a narrativa, como o uso de deus ex machina (mas, poxa, estamos falando de uma historia de magos), algumas incoerências (onde estão os vira tempos quando….? Se a poção polissuco só dura uma hora então….? Por que a  poção Felix Felicis….?), e os longos diálogos expositivos, J. K. Rowling escreveu uma obra fluida que se torna uma leitura agradável capaz de nos levar a pensar, a procurar razões, a questionar a obra, a nos questionar e questionar nosso entorno. Isso vai depender de como o leitor encarará sua leitura, até onde ele pode e quer ir.

Sentados em nossas cadeiras terminamos de ler as últimas paginas destes sete longos livros. O feitiço foi realizado. As palavras foram ditas. Resta saber o efeito que nos fez.

por Rui Carodi

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4 pensamentos sobre “Experiência de leitura: Harry Potter por um não-fanático

  1. “Isso vai depender de como o leitor encarará sua leitura, até onde ele pode e quer ir.” Amei. Gostei da análise de ambiente/realidade através da leitura e, apesar de não ser amante deste tipo de literatura, pretendo ler um livro da coletânea, ao menos.

  2. Sempre achei que a antipatia dos tios do Harry foi uma estratégia da J. K. Rowling para criar simpatia pelo protagonista – e muito bem utilizada: deu super certo! Assim como as diferentes características do trio de amigos Harry/Rony/Hermione – as coisas funcionam, mesmo quando não funcionam – o momento em que Rony abandona os amigos em fuga na floresta, talvez um dos mais angustiantes da série, dá credibilidade e realismo à relação deles, e aponta que mesmo para situações que parecem insuperáveis há saídas possíveis. Na verdade, esse é talvez um dos grandes motes da série: há saídas. Mas os leitores também ficam na vontade de que uma delas fosse para Hogwarts!
    Bom post!

  3. Olha eu assisti somente os filmes. Acredito que o livro seja melhor, fiquei encantada no filme com o jogo de xadrez que se movia. Todos os cenários são lindos. Não sei se conseguiria ler todos os livros mas assisti todos os filmes que saíram até agora.
    Talvez eu crie coragem pra ler os livros.

  4. Muito interessante a sua análise, Rui Carodi. Nunca havia pensado sobre como a obra se movimenta por meio de antíteses.. De qualquer forma, concordo que o modo como podemos nos identificar com os personagens e suas histórias é realmente fundamental para o sucesso obtido pelos diversos volumes. Nesse caso, a própria imaginação com pitadas de realidade se torna um fator de identificação! Por isso, finalizo o comentário retomando suas palavras iniciais: “Sentados em nossas cadeiras, encantados com um mundo que nos entedia, precisamos de um pouco de imaginação […]”.

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