Experiência de Leitura – Razão e Sensibilidade

Por que ler um livro escrito há duzentos anos falando sobre mocinhas do interior da Inglaterra?  Por que ler um livro em que quase nada acontece, um romance que não descreve um único beijo, sequer um abraço, e que após mais de duzentas páginas as personagens principais simplesmente se casam?

Porque, após conseguirmos nos adaptar ao ritmo no qual a leitura se torna agradável, percebemos que estamos diante de um grande livro, cuja escritora era uma observadora que encontrou em seu tempo coisas que nos acompanham até hoje.

Não há nenhuma página em Razão e Sensibilidade em que não seja possível encontrar uma observação de Jane Austen sobre algum aspecto psicossocial escrito de forma fina, muitas vezes irônica. É muito instrutivo ler o segundo capítulo quando o meio-irmão das protagonistas e sua esposa discutem sobre entre a obrigação com as filhas de seu pai e os seus próprios interesses. Nos faz imaginar quantas vezes argumentos similares são utilizados em proveito próprio.

Razão e Sensibilida estará disponível no acervo em junho.

Razão e Sensibilida estará disponível no acervo em junho.

As heroínas de Jane Austen são mulheres típicas do período romântico: elas não agem, elas reagem a uma situação. Assim é essencial percebermos tanto as semelhanças quanto as diferenças de personalidade e de situações que enfrentam as irmãs Dashwood.

Mariane, a irmã mais nova, descrita como mais impulsiva e sentimental, demonstra durante o romance as ações que são acompanhadas de perto pelos outros personagens. Suas alegrias e sofrimentos, desde o inicio do romance com John Willoughby até a pérola de cafajestice que é a carta que este lhe envia e suas consequências, são públicas, provocando  comentários e ações dos que estão ao seu redor.

Como contraponto, a irmã mais velha, Elinor, descrita como mais racional e sempre preocupada com as reações que possa provocar, sofre uma situação similar – se apaixonar por um homem, que já esta comprometido, e ver esta paixão impedida pelas circunstâncias – mas somente sabemos disto pelas descrições da autora e por atos que acabam por reforçar seu sofrimento e sua personalidade, como, por exemplo, a confidência de sua rival.

Em torno destas tramas básicas, vemos surgir personagens que embora possam não ter uma complexidade grande, jamais são planos, com ações e pensamentos que combinam com seu modo de ser e agir. Todos típicos representantes da classe média, são pessoas com personalidade que facilmente poderíamos encontrar em nossa vida social: a mulher que procura espalhar histórias, o marido com um único assunto, a mãe que se afeiçoa demais aos filhos, o homem egoísta que se justifica internamente, etc.

Além disto, esses personagens secundários com suas motivações e características têm uma função fundamental na trama. A persistência e insegurança do Coronel Brandon em se apaixonar por uma mulher mais jovem; a esperteza e oportunismo de Lucy Steele em trocar de amores; a preocupação e o egoísmo de Fanny Dashwood em beneficiar seu filho; e vários outros personagens são narrados com muita precisão, com a dose certa de ironia e tornam o romance algo vivo, no qual adentramos com o espírito de sua época, permitindo compreender as ações de cada personagem.

Por fim, esta leitura é um convite. Um convite para pensarmos no nosso agir e na nossa forma de amar; e também um convite (por que não?) a amarmos com menos preconceitos.

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