A Polaquinha – Recomendado por Patrícia Lima

A Polaquinha, de Dalton Trevisan

Polaquinha, moça pobre, de vida difícil, bonita e, por isso, muito cobiçada pelos homens. Não se trata de uma história de amor, pelo menos não de uma história romântica. Pode-se dizer que é uma história da procura intensa por amor e completude, que se dá principalmente através da busca desenfreada do prazer erótico.

Capa da edição da Record Foto: www.candido.bpp.pr.gov.br

Capa da edição da Record Foto: http://www.candido.bpp.pr.gov.br

A trama inicia-se na adolescência da protagonista, onde se dá sua iniciação sexual. O apelido Polaquinha surge pelo fato da moça ser loira, e este é um dos maiores atrativos para os homens com quem se relaciona. O fato da moça não ter nome é uma maneira de despersonalizar o sujeito, reduzindo-o a um simples atributo físico.

Meio a curiosidades da idade e desejos de descoberta, ela se entrega a João: rapaz magro, feio, com problemas respiratórios – o oposto do príncipe encantado padrão. Esse personagem nos insere no mundo machista que irá rondar a protagonista até o fim da obra. João, entre muitas agressões e desconfianças típicas do pensamento patriarcal, tira a virgindade de Polaquinha, para logo em seguida abandoná-la e deixá-la em contínua saudade.

Seu segundo relacionamento se dá com Tito, talvez o homem que lhe daria mais respeito, que realmente viria a lhe querer bem. Ainda assim, casado e com filho (o respeito dos homens em relação à protagonista parece nunca vir de maneira plena). Com ele tem sua segunda experiência sexual, mas não consegue chegar ao limite do prazer.

A ruptura da vida de adolescente para a adulta viria com Nando, para quem se entregaria de maneira completa. Nessa intensa busca pelo prazer, observamos a intenção de Trevisan em nos fazer embarcar neste trem de redenção e perdição que pode ser a entrega total de uma mulher. Polaquinha “perde” quatro anos de sua vida (como viria a falar mais tarde) com Nando, entre prazeres, conforto emocional, desconfianças e brigas.

As frequentes humilhações pelas quais a personagem passa nos mostram que quando a mulher atreve-se a assumir um comportamento transgressor numa sociedade extremamente machista – fugindo das convenções repressoras invariavelmente impostas – pode ser obrigada a enfrentar outro lado da violência: a verbal e física que lhe são dirigidas.

A escrita de Trevisan consegue dimensionar o sofrimento – às vezes inconsciente – desta mulher que já não sabe por que, mas aceita com resignação os abusos que lhe são dirigidos. Fica muito clara essa passividade no último relacionamento de Polaquinha – com um motorista de ônibus chamado Pedro. Homem de “conversa mole”, o famoso conquistador, também é casado e tem filhos. Não se intimida com a presença da amante meio a outros flertes. A sina de Polaquinha é ser vítima (ou não, depende muito da interpretação) do machismo que formou a personalidade de seus pares. E aceitar isso até o limite psicológico e físico.

Os últimos sete capítulos da obra são extremamente interessantes, para não dizer geniais. Cabe dizer aqui – para não estragar a curiosidade de quem ainda não leu – que a história de Polaquinha tem um fim gradual, no qual o leitor insere-se inteiramente através de uma ambientação profundamente realista.     É aí que encontramos a definição do escritor: um profundo esmiuçador da realidade crua.

O livro, publicado em 1985, foi o primeiro e último romance escrito pelo conhecido contista Dalton Trevisan, e sua leitura é válida ainda hoje, pois, como sabemos, apesar de uma relevante evolução social nos últimos vinte e oito anos, os valores patriarcais e machistas ainda permeiam a sociedade brasileira. Vale a pena também conhecer o estilo de Trevisan, que traz à tona questões bastante profundas, apesar de sua escrita enxuta. Não a confundam com escrita preguiçosa. O escritor consegue trabalhar a linguagem de uma maneira totalmente inovadora, dizendo muito com poucas palavras, além de inverter a ordem das orações e instigar a inteligência do leitor com trechos de complexa interpretação. A obra tem traços extremamente eróticos, que podem parecer absurdos para um leitor de moralismo desavisado, mas é exatamente na pena artística do mestre que encontramos a transformação do que poderia ser taxado de vulgar em uma moldura artística que deixa marcas de encantamento, melancolia e compreensão humana naqueles que se atrevem a degustá-la.

por Patricia Lima

Patrícia é funcionária da seção de RH da FAAC, estudou Biologia na FC e Linguagem, Cultura e Mídia na FAAC e foi nossa leitora do mês de Fevereiro.

Leu um livro da Biblioteca e gostaria de recomendá-lo aqui no blog? Mande um e-mail para camila@bauru.unesp.br.

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