Experiência de Leitura – A Humilhação

Foto: Divulgação

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Você já sabe o que vai acontecer. Nas primeiras páginas, há uma solução para o Simon Axler, mas é tão difícil aceitá-la que precisamos ver seus pensamentos para não fugir. Nosso personagem perdeu o que lhe causava orgulho, as coisas que podiam mantê-lo humano aos próprios olhos.

Nós, leitores, em algum momento tivemos as dúvidas e os sentimentos que o romance A Humilhação descrevem para seu protagonista. Mas, sempre tivemos alguma esperança, algo que no futuro poderíamos conseguir. Simon chegou a uma fase de sua vida em que não lhe é mais possível esta possibilidade.

Aos sessenta e cinco anos, consagrado como ator, perde a capacidade de atuar. Nossa identificação é fácil, ocupando nossas profissões tentamos parecer com a imagem que fazemos de nós mesmos. Procuramos em nossas vidas pessoais sermos os melhores nas atividades de cada papel que socialmente ocupamos, frequentemente nos preocupamos se realmente somos bons, se não conseguiríamos sermos melhores ou tão bom como pensávamos que éramos. Às vezes, como Simon, temos a certeza de que não e nada do que ele procure fazer poder retirar dele esta certeza.

Mas, o autor Philip Roth é muito hábil em demonstrar quanto humano, quanto universal e banal que estes tormentos são. Ele não se deixa entrar em mares de autopiedade, e apresenta personagens que são bem mais velhos e não sofrem com esta angustia (como o editor de Simon). Além de apresentar uma tragédia maior com outra personagem, cuja história se desenvolve na narrativa tanto quanto complemento como comparação. A história de Sybil Van Buren, que viu ou acredita ter visto uma violência sexual com sua filha de quatro anos, é algo que não poderá ser esquecido embora seja tratada em tão poucas páginas e com tão poucos pontos em comum com história principal.

Quem já conheceu o autor em seu primeiro romance (Complexo de Portenoy) e, como eu, não acompanhou seu percurso literário, vai sentir falta do humor, de certa leveza, neste livro. Porém não poderá negar que o talento se aprimorou e a capacidade de descrever situações se tornou algo próximo do sublime. Todos relacionamentos de Simon, a separação com sua mulher, a complicada relação com a professora lésbica Pegen, são detalhados sem nunca se soarem falsos, com palavras precisas e sem excessos. Por sinal, toda a narração que envolve Pegen, desde a história pessoal antes de conhecer Simon até sua despedida, a tornam tão real que não é necessário explicar seus motivos. Nós os entendemos, pois conseguimos pensar como ela.

Perto do final do romance temos uma brilhante descrição de uma fantasia sexual constante do universo masculino sendo realizada. O autor não nos poupa da realidade de que esta fantasia não é libertadora, e de que, no fundo, ela é triste, sendo resultado de nossa impotência humana.

Um excelente livro, curto e cruel.  Leiam com cuidado e tenham algum plano para poder se divertir depois.

por Rui Carodi

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