Uma ou duas palavras sobre: Envelhecer

“Será que todos percebem quando a gente faz trinta anos?” A mesma dúvida e raiva que eu tenho – quando, por educação, lembram-me que agora serei sempre nomeado de senhor –  foram expressadas por uma amiga há poucos momentos. O que me fez recordar que um assunto comum em vários escritores é o envelhecimento.

O primeiro texto que recordo é também o primeiro que li de Érico Veríssimo. No conto “Os devaneios do  General”, um militar vai se recordando amargamente de seu passado cruel enquanto observa sua influência na própria família se findar e sua dignidade se extinguir. O ponto triste e irônico é que os piores defeitos de uma geração parecem estar ainda nas posteriores e a alegria que resta é que a crueldade persiste.

Clarice Lispector também não apresenta uma velhice feliz. O aniversário de 90 anos de Zilda, no conto “Feliz Aniversário”, poderia ser a descrição de inúmeras reuniões obrigatórias de família onde o que menos importa é o que se pensa ou sente sobre o assunto da festa. E quando este não cumpre a risca seu papel premeditado um mal estar se instala. Seria a morte, como o conto parece propor, o segredo único que nos livra deste ciclo?

Os velhos dos livros de Jorge Amado parecem não concordar. Embora sem a energia que seus passados parecem conter, ainda tem na memória uma alavanca para permanecer socialmente ativos. Nem que seja uma memória inventada como no capitão de longo curso de “ Os Velhos Marinheiros”.

Mas se eu realmente pudesse recomendar um livro a minha amiga, que infelizmente agora não está para leituras, seria sem dúvidas um do Gabriel Garcia Marques. Não, não é “Memórias de Minhas Putas Tristes”, livro fino que fala de um velho que procura ter recuperada sua vida ao dormir com uma jovem. Não, o melhor livro seria “O Amor nos Tempos do Cólera”, cujo início nos faz pensar que veremos apenas mais uma história com personagens velhos, e depois, que leremos sobre um amor ridículo. Mas nada disto é verdade.

“Amor Nos Tempos do Cólera” nos apresenta duas vidas, com grandes toques de realidade, que se encontram e se afastam, vencem e perdem, mas que principalmente não desistem de viver. E que cada momento tem suas decisões, angústias e alegrias que merecem ser inteiramente vívidas.

Rui Carodi

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