Uma palavra ou duas sobre: Inércia

Existe um tempo bem curto em que cada ação que você fizer lhe dará resultados incertos, em que as conseqüências podem ser prováveis, mas não certas. Um tempo em que não saberá precisamente quais os resultados de suas decisões. Este curto tempo é chamado comumente de vida.

Talvez você queira utilizar este período como Giovanni Drogo, personagem principal do livro de Dino Buzzati chamado O Deserto dos Tártaros, que ao chegar em certo ponto de sua profissão começa a se decepcionar, a perceber a pequenez e inutilidade de tudo ao seu redor. Com todo um sistema pronto para a monotonia cotidiana, Giovanni pauta suas decisões na prudência que vai se revelando uma forma de medo das mudanças em que uma ação é adiada um pouco, depois um pouco mais, até que se torna inútil. Ele acaba por se resignar a mesquinhez de uma vida de vitórias desprezíveis, na qual sequer pode reconhecer os sonhos que possuía, sabendo que espera por ser substituído e quando afinal pretende se modificar é tarde demais.

Mas, é tão difícil suportar ver as pessoas da forma que descrevi acima que possivelmente consiga achar poucas parecidas. É bem mais provável que possas enxergar pessoas como George Babbitt, do livro Babbitt de Sinclair Lewis, que são fascinadas pelo seu tempo pelas escolhas que podem tomar. Babbitt se orgulha da modernidade e progresso de suas condições de vida (isto em 1920) e sempre toma suas escolhas baseadas no senso comum, evitando surpresas. Torna assim sua vida um ciclo inescapável de monotonia em que o medo do ridículo evita seus próprios desejos, suas aspirações. Lotado de escolhas, se vê perdido nelas e pautado pela segurança age como um divulgador do conformismo. Ao final chega na conclusão que dos várias milhas que poderia ter avançado sequer ultrapassou alguns centímetros.

E se necessário chamar mais um exemplo, que seja um dos melhores: Bartleby, o escriturário de Hermam Melville, com sua insistente frase “prefiro não fazer”. Nesta novela curta temos o absurdo da extrema inação, onde o personagem simplesmente escolhe não fazer nada. E nesta rejeição se torna um mistério, um estorvo e, por fim, algo a ser ignorado. Ao não agir, este personagem chega à indiferença ao mundo e a si próprio; escolhendo o não ser, ele renega sua vida.

Você, neste curto período que pode tomar decisões, tem diversas opções. Duas são muito claras: tomar decisões incertas que poderá se arrepender; ou simplesmente escolher “prefiro não fazer”.

Rui Carodi

“O Deserto dos Tártaros” e “Babbitt” podem ser emprestados utilizando o serviço de Empréstimo entre Bibliotecas.

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