Experiência de Leitura. A ESTRADA de Cormac McCarthy.

20150126_185458

Capa do Exemplar da Biblioteca.

Há centenas de formas de escrever sobre as relações entre pais e filhos. Se enfocarmos mais o lado dos pais alguns sentimentos parecem ser constantes como: a insegurança por não saber se o que esta fazendo é o mais correto;  o sentimento de proteção ao filho;  as pequenas alegrias que ocorrem quando a experiência é útil em alguns momentos; a incerteza constante quanto ao futuro e ao preparo que esta dando a sua cria.

Cormac McCarthy (autor arredio, muito conhecido por suas histórias secas ambientadas no oeste americano como Meridiano de Sangue e Onde Os Fracos Não Tem Vez) decidiu contar uma história assim, e para contá-la resolveu criar um romance de sobrevivência impactante em um ambiente devastado, povoado por criaturas canibais (Zumbis? Vampiros? Homens desesperados? Pouco importa, são os outros, os inimigos.)  e provou mais uma vez que seus poucos livros o colocam com folga entre os melhores escritores dos Estados Unidos.

Na história, encontramos um homem e seu filho já cansados de uma longa viagem na qual levam todos seus pertences em um carrinho de supermercado, penosamente sendo empurrado por estradas desertas, em um mundo despovoado, destruído por uma grande tragédia. Nunca temos detalhes sobre o quê, quando, ou mesmo porquê este desastre aconteceu, mas fica claro que tudo é obra de atos humanos.

O pai é um homem rústico, descrito como de certa idade e dando a entender que envelhecido prematuramente devido ás circunstâncias, enquanto o filho é uma menino, jovem demais para ser realmente útil nos esforços mas com discernimento para entender a situação que estão. Os diálogos entre estes personagens são raros e soariam banais em outras circunstâncias, porem o autor é hábil em não desperdiçar o peso dramático de cada fala. Desta forma, sem forçar para o sentimentalismo, palavras e ações de cada interação destes personagens fazem o leitor entender a importância desta relação familiar.

Gostaria de citar duas passagens onde isto ocorre. Na primeira, o pai consegue preparar uma espécie de cozido com cogumelos e, junto com o filho, acabam tendo a refeição daquele dia. É algo pobre e difícil de engolir, mas é o melhor que se consegue fazer e eles só podem passar juntos por isto. Na segunda, uma lata de Coca-Cola, talvez a última do mundo, é encontrada e o pai insiste que o filho a beba, para que tenha esta experiência que ele mesmo teve.

Nesta jornada, em que a incerteza e o perigo são constantes e as perdas são inevitáveis , a esperança é débil mas é a única coisa que ainda faz a trajetória possível. O autor conseguiu escrever um belo livro, que pode servir de metáfora a vários aspectos dos relacionamentos familiares e até sociais, sem ter uma situação inútil, sem que nem uma emoção precise ser citada para que o leitor a entenda.  Cormac McCarthy escreveu um livro que  acompanhará o leitor disposto a se indagar constantemente em suas relações pessoais. Cormac McCarthy conseguiu escrever uma obra prima, em que nada sobra ou nada falta. Um livro que se renova a cada leitura e deve ser sempre recomendado.

Por Rui Carodi.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Experiência de Leitura. A ESTRADA de Cormac McCarthy.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s