Falando em cinema, física, premiação do Oscar e etc.

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O livro de Stephen W. Hawking, “Uma breve história do tempo” também faz parte do nosso acervo:
523.1
H325b
54.111/55.011/55.012 e outros…

Veja a crônica do professor Mauro Galetti

Stephen Hawking: meu ilustre vizinho
Crônica de Mauro Galetti, professor do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro

Está nos cinemas de todo o mundo e concorreu ao Oscar o filme A teoria de Tudo que conta a história do famoso físico inglês Stephen Hawking. Assistindo ao filme essa semana, não pude me emocionar e relembrar do meu vizinho ilustre. Isso mesmo, Stephen Hawking foi meu vizinho em Cambridge em 1993, quando na época eu era aluno de doutorado. Numa época que não existia email, celular, selfies e as únicas celebridades em que os paparazzi se importavam eram a real família britânica, era comum encontrar cientistas famosos nas ruas de Cambridge. Atualmente com 88 prêmios Nóbeis nas mais diversas áreas, Cambridge é uma universidade que ainda mantêm tradições centenárias. A Universidade nasceu antes mesmo que a cidade. Em 1209 alguns professores que divergiram da cúpula acadêmica da Universidade de Oxford decidiram rebelarem-se e fundar a Universidade de Cambridge, o que viria a ser uma das universidade mais famosa do mundo. A Universidade de Cambridge tem hoje 18.000 alunos e é composta por 31 Colleges e 150 departamentos. Nos Colleges é onde os professores e alunos estão afiliados, residem e socializam-se. Cada College tem suas cores, tradições, influência e cada um escolhe seus próprios alunos. A Universidade de Cambridge abrigou e ainda abriga uma grande parte dos maiores cientistas do mundo. Foi nessa universidade que William Harvey descreveu pela primeira vez a circulação sanguínea, Isaac Newton estudou, lecionou e escreveu seu famoso livro sobre a gravidade (Principia), Watson e Crick desvendaram a estrutura do DNA. Não apenas grandes cientistas estudaram em Cambridge, mas 15 Primeiros Ministros da Inglaterra, além de John Harvard (fundador da Universidade de Harvard nos Estados Unidos) e Charles Darwin. Outros ex-alunos famosos incluem David Attenborough, Príncipe Charles, Hugh Laurie (ator de House), Emma Thompson, e muitos atores de Hollywood. Cheguei na Universidade de Cambridge na Inglaterra em setembro de 1992 logo após ter defendido meu mestrado numa época politicamente turbulenta no Brasil que acarretou o impeachment do então presidente Fernando Collor. Estranho pensar que essa época parece ter voltado. Nunca havia estudado fora do Brasil e minha intenção era aproveitar ao máximo a chance que o governo brasileiro (através de bolsa do CNPq) havia me concedido com um bolsa de doutorado para estudar na mais prestigiosa universidade do mundo. Tornar-me um cientista antropófago, como Oswald de Andrade bem colocou em seu Manifesto antropofágico de 1928. Absorver tudo o que é de melhor, digerir e aí produzir uma ciência brasileira. Em Cambridge, meu quarto no Robinson College era espartano, cabia apenas uma cama e uma pequena escrivaninha. Era o menor quarto de Cambridge e certamente o mais barato. Eu pagava 100 libras esterlinas por mês, uma pechincha. Mas diferente da maioria das universidades do mundo, a arte e ciência se misturam nas amizades e nas conversas de pubs. Sempre acordava tarde pois passava a noite lendo e escrevendo meus trabalhos. Depois de um café instantâneo, pegava minha bicicleta e seguia rumo ao meu Departamento. Quase sempre frio e uma chuva fina me acompanhava. No meu caminho era recorrente encontrar o Professor Stephen Hawkins saindo de seu pequeno apartamento acompanhado de sua enfermeira e segunda esposa. Seu apartamento ficava em um College para pós-graduandos em uma rua pacata. O nosso bairro era afastado do centro e numa área cercada de macieiras e campos de Rugbi. Hawkins já era famoso entre os leigos pelo livro “Uma breve história do tempo” descobriu ter esclerose múltipla quando era aluno de doutorado de Cambridge. Sua cadeira de rodas ia dirigindo lentamente pelas ruas de Cambridge e sua enfermeira ia a pé ao seu lado. Ninguém o importunava, nunca vi ninguém parar para tirar sua foto. Uma vez parei no sinal e ao meu lado lá estava Hawking indo trabalhar, também esperando o sinal abrir. Eram épocas mais simples que o respeito e admiração eram guardadas para si mesmo. Assim como Hawking, Cambridge me proporcionou assistir palestras de prêmios Nobeis (como a de Francis Crick) e outros cientistas que viriam a ser famosos. Cambridge me fez entender que uma universidade deve ser a melhor experiência acadêmica na vida de um aluno. Assistindo ao filme da vida do Professor Hawking no cinema fiquei feliz que a vida de um cientista tenha chegado ao grande público. Hoje, numa época em que celebridades são criadas e destruídas em minutos, ainda existe espaço para ouvir a história de quem realmente importa.

Mauro Galetti é professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro.

Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 23 de fevereiro de 2015.

Assessoria de Comunicação e Imprensa

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