EXPERIENCIA DE LEITURA: O MENINO MALUQUINHO

978-85-06-05510-6-menino-maluquinho

Escrever para crianças não é fácil. E uma das maiores dificuldades é que parece ser muito fácil. Deve-se usar uma linguagem simples, deve-se comunicar bem com outra geração e deve-se lembrar que os adultos responsáveis pelas crianças é que serão os críticos destas histórias. E assim, a maioria dos autores falha, ou por não saber falar com as crianças de uma forma que elas gostem, ou por não convencer os adultos que aquele livro é bom para seus filhos.

Ziraldo Alves Pinto conseguiu escrever vários clássicos infantis, como Flicts, O Menino Marrom, O Planeta Lilás, e principalmente O Menino Maluquinho. A pergunta que fica é então: como Ziraldo conseguiu escrever tão bem para crianças?

Para tentar uma resposta vamos dar uma olhada no mais conhecido livro dele: O Menino Maluquinho.

extralivro07

Foi publicado em 1980, é narrado em terceira pessoa e fala de um menino normal com ilustrações simples (que uma criança pode copiar ou criar com base nos desenhos). Todo o livro é uma descrição deste menino que tem sua família amigos e problemas comuns. E aí começamos a perceber algumas coisas. O livro só se foca na personalidade e nas relações pessoais do menino, não em suas posses ou pensamentos. Sempre o vemos a uma distancia próxima, mas não demasiadamente intima. A história dele é comum, entretanto não é tratada de forma insignificante ou mesmo sem ser particularizada.

Observe que os pais do menino (não há realmente nomes neste livro, as pessoas são chamadas por suas relações: o pai, a mãe, o professor, etc.) se separaram. Isto é algo comum o suficiente para várias crianças ao menos conhecerem alguém que teve a experiência, mas não é o padrão contado na maioria dos livros. Ou seja, qualquer um pode ser este menino, mas este personagem é impar por si.

Mais um aspecto importante é que as idéias são representadas realmente de forma abstrata. Isto é muito raro, pois exige que o leitor compreenda sobre sentimentos. Ziraldo não subestima a inteligência das crianças, deixando a elas a opção de rir de coisas que provavelmente já escutou ou que quando escutar irá fazê-las recordar o livro.

E, por fim, o maior aspecto que se destaca é que todo o livro é um imenso elogio do encontro da imaginação com a realidade. E sem que uma seja fuga ou antagônica a outra, no livro as duas convivem e servem como alicerces a felicidade da infância e ao desenvolvimento saudável.

O grande segredo que O Menino Maluquinho de Ziraldo conta a quem quer escrever para crianças, ou mesmo conviver com crianças é este: respeitem a imaginação e a inteligência das crianças. Elas já começaram a historia que formara os adultos que serão.

RUI CARODI

 

Experiência de Leitura: A Orelha de Van Gogh

IMG_20151130_011148966[1].jpg

                Moacir Scliar foi um escritor fabuloso. Nascido em Porto Alegre, de família judia, e formado em medicina com especialização em saúde publica, parece dizer a cada frase que a literatura é uma festa a que todos estão convidados. Você poderá lê-los e aproveitá-los não importando se tens uma bagagem cultural de décadas de erudição ou se aprendeu a ler apenas alguns meses atrás. Tirará deles um grande proveito, pois funcionam como parábolas, fabulas e relatos que parecem esconder em sua simplicidade algumas grandes verdades.

               Seus contos em geral são muito simples e marcantes, e neste “A Orelha de Van Gogh” alcançaram um grau de escritura em que tudo que é narrado é interessante e desperta lembranças. Não é a toa que o uso de personagens arquétipos como o velho, o anão, o príncipe, o ditador, o matemático, etc. e o reconto de narrativas bíblicas e populares se mistura com personagens cotidianos fundindo perfeitamente um mundo fantasioso com a comum vivencia que todos conhecemos.

                 Esta característica acaba tornando suas histórias atemporais e sem caracteristicas locais exageradas. Mesmo em um conto com tema regional como “Marcha do Sol nas Regiões Temperadas”, poderia virar um filme americano ou francês, ou ser adaptada para um mangá ou fumetti sem perder sua essência.

                   Exatamente nisto que esta a grande força destas histórias. Na sua essência contam sobre os grandes temas, os maiores medos, incertezas e decepções que a vida de qualquer pessoa passará de uma forma leve, mas irônica e conseqüente. São pequenos flashes de uma luta enorme do homem com o destino.

                 Assim, sem perder a tristeza, vemos a morte de uma criança recém nascida em “Minuto de silêncio” e nos pegamos a pensar na coincidência que a envolve. Ou vemos um relato bíblico que envolve um povo inteiro pelo ponderar de um homem sobre uma cabra. Ou mesmo no conto que dá nome ao livro toda a cadeia de acontecimentos que envolvem a sobrevivência de uma família é narrada divertidamente por um esquema de um tio trapaceiro. Ou seja, todas as grandes questões estão ali, só dependendo do leitor querer se aprofundar nelas.

                   De minha parte, já havia lido este livro quinze anos atrás (talvez até mais) e fiquei surpreso que sem qualquer esforço me recordava tudo novamente. Como uma história que sempre existiu e que pode sempre ser contada com prazer. Como histórias que a leitura sempre vai estar com você.

RUI CARODI

Experiência de Leitura: Como Me Tornei Estúpido de Martin Page

Como Me Tornei Estúpido Martin Page

Como Me Tornei Estúpido
Martin Page

         É fácil simpatizar com Antoine, Protagonista de “Como Me Tornei Estúpido” do autor Martin Page. Ele é um jovem de 25 anos, inteligente e excêntrico, que ainda visita o mesmo medico pediatra de quando era criança e (em uma cena) é carregado no colo por um amigo (talvez a forma do autor de demonstrar que ele é imaturo). Ele tem conhecimentos inúteis em grande quantidade e vários que o leitor também terá, ou ao menos reconhecerá como comuns aos que se dizem intelectuais. Ou seja, ele é um desses personagens relativamente comuns em sitcoms, que poderia ser descrito como gênio deslocado. Até mesmo, sua decisão de eliminar a inteligência, porque esta lhe esta trazendo mais problemas que satisfações, não soará estranha. Ele é um personagem que é agradável de gostar, e isto pode ser um grande problema.

      Este problema não esta nas situações surreais que ele enfrentará por sua decisão. Quando tentará se tornar alcoólatra, quando tentará ingressar num clube de suicidas, quando tentará usar pílulas ou quando tentará ter sucesso no mercado de ações, todas estas situações são engraçadas e lhe fará encontrar personagens muito interessantes e, em sua maioria, cínicos, os quais tornam a representação do mundo real bem evidente. E não chega nem a ser totalmente previsível o desenrolar dos capítulos, visto que em alguns ele consegue o sucesso, ou o fracasso relativo, ou a decepção plena.

         O problema também não esta no desenvolvimento rápido da história e no seu final apressado. Se imaginarmos que no início desta novela, Antoine não poderia considerar a outras pessoas como iguais, o fato de só perceber outra personagem tão excêntrica quanto ele, e começar um relacionamento chega a ser uma decisão boa para demonstrar seu desenvolvimento, embora ainda pareça tão corrido quanto uma sitcom. O autor queria fazer um livro leve, rápido e divertido. Conseguiu com êxito.

         O problema esta no leitor não perceber que aquele agradável personagem é estúpido desde a primeira linha do livro. E, não percebendo isto, não notar que Antoine é uma representação de si próprio, do tipo comum de nossos dias, que foi educado para se achar especial, em um lugar em que ser especial é doloroso.

Rui Carodi

Experiência de Leitura. A ESTRADA de Cormac McCarthy.

20150126_185458

Capa do Exemplar da Biblioteca.

Há centenas de formas de escrever sobre as relações entre pais e filhos. Se enfocarmos mais o lado dos pais alguns sentimentos parecem ser constantes como: a insegurança por não saber se o que esta fazendo é o mais correto;  o sentimento de proteção ao filho;  as pequenas alegrias que ocorrem quando a experiência é útil em alguns momentos; a incerteza constante quanto ao futuro e ao preparo que esta dando a sua cria.

Cormac McCarthy (autor arredio, muito conhecido por suas histórias secas ambientadas no oeste americano como Meridiano de Sangue e Onde Os Fracos Não Tem Vez) decidiu contar uma história assim, e para contá-la resolveu criar um romance de sobrevivência impactante em um ambiente devastado, povoado por criaturas canibais (Zumbis? Vampiros? Homens desesperados? Pouco importa, são os outros, os inimigos.)  e provou mais uma vez que seus poucos livros o colocam com folga entre os melhores escritores dos Estados Unidos.

Na história, encontramos um homem e seu filho já cansados de uma longa viagem na qual levam todos seus pertences em um carrinho de supermercado, penosamente sendo empurrado por estradas desertas, em um mundo despovoado, destruído por uma grande tragédia. Nunca temos detalhes sobre o quê, quando, ou mesmo porquê este desastre aconteceu, mas fica claro que tudo é obra de atos humanos.

O pai é um homem rústico, descrito como de certa idade e dando a entender que envelhecido prematuramente devido ás circunstâncias, enquanto o filho é uma menino, jovem demais para ser realmente útil nos esforços mas com discernimento para entender a situação que estão. Os diálogos entre estes personagens são raros e soariam banais em outras circunstâncias, porem o autor é hábil em não desperdiçar o peso dramático de cada fala. Desta forma, sem forçar para o sentimentalismo, palavras e ações de cada interação destes personagens fazem o leitor entender a importância desta relação familiar.

Gostaria de citar duas passagens onde isto ocorre. Na primeira, o pai consegue preparar uma espécie de cozido com cogumelos e, junto com o filho, acabam tendo a refeição daquele dia. É algo pobre e difícil de engolir, mas é o melhor que se consegue fazer e eles só podem passar juntos por isto. Na segunda, uma lata de Coca-Cola, talvez a última do mundo, é encontrada e o pai insiste que o filho a beba, para que tenha esta experiência que ele mesmo teve.

Nesta jornada, em que a incerteza e o perigo são constantes e as perdas são inevitáveis , a esperança é débil mas é a única coisa que ainda faz a trajetória possível. O autor conseguiu escrever um belo livro, que pode servir de metáfora a vários aspectos dos relacionamentos familiares e até sociais, sem ter uma situação inútil, sem que nem uma emoção precise ser citada para que o leitor a entenda.  Cormac McCarthy escreveu um livro que  acompanhará o leitor disposto a se indagar constantemente em suas relações pessoais. Cormac McCarthy conseguiu escrever uma obra prima, em que nada sobra ou nada falta. Um livro que se renova a cada leitura e deve ser sempre recomendado.

Por Rui Carodi.

Leitura nas férias!

Férias chegando, mas a Biblioteca da Unesp de Bauru permanecerá aberta, exceto no período de recesso (de 22 de dezembro de 2013 a 05 de janeiro de 2014).

Os leitores interessados poderão frequentar durante todo o período, utilizar o espaço para estudo, fazer pesquisas, empréstimos e devoluções. Já aqueles que irão viajar, também terão vantagens, a devolução dos materiais emprestados está para o dia 1º de março de 2014, podendo ser renovados caso não haja reserva do material nem pendências no cadastro.

Para uma pausa nas leituras obrigatórias e científicas, sugerimos os livros de literatura disponíveis no acervo da Biblioteca, que são interessantes e diversificados, como os listados abaixo:

O vampiro Lestat – Anne Rice, foi disponibilizado no acervo no mês passado.

A culpa é das estrelas – John Green, disponibilizado no mês de novembro, sucesso entre os jovens.

Meninas inseparáveis – Lori Lansens, disponibilizado neste mês (dezembro), história sobre irmãs siamesas.

A leitora do alcorão – G. Willow Wilson, interessante história sobre uma americana que se converte ao islamismo.

A solidão dos números primos – Paolo Giordano, história de amor com inúmeras interferências e problemas de saúde, superações, etc.

As mentiras que os homens contam – Luiz Fernando Veríssimo, humor brasileiro.

O menino do pijama listrado – John Boyne,  história comovente sobre a guerra.

A cidade do sol – Khaled Hosseini, do mesmo autor de “O Caçador de Pipas” que aborda também a situação do Afeganistão, entretanto com foco na mulher Afegã.

Queria que você estivesse aqui – Francesc Miralles.

A Biblioteca conta ainda com vários outros títulos de literatura portuguesa e internacional.

Seção Técnica de Aquisição e Tratamento da Informação

Uma ou duas palavras sobre: Envelhecer

“Será que todos percebem quando a gente faz trinta anos?” A mesma dúvida e raiva que eu tenho – quando, por educação, lembram-me que agora serei sempre nomeado de senhor –  foram expressadas por uma amiga há poucos momentos. O que me fez recordar que um assunto comum em vários escritores é o envelhecimento.

O primeiro texto que recordo é também o primeiro que li de Érico Veríssimo. No conto “Os devaneios do  General”, um militar vai se recordando amargamente de seu passado cruel enquanto observa sua influência na própria família se findar e sua dignidade se extinguir. O ponto triste e irônico é que os piores defeitos de uma geração parecem estar ainda nas posteriores e a alegria que resta é que a crueldade persiste.

Clarice Lispector também não apresenta uma velhice feliz. O aniversário de 90 anos de Zilda, no conto “Feliz Aniversário”, poderia ser a descrição de inúmeras reuniões obrigatórias de família onde o que menos importa é o que se pensa ou sente sobre o assunto da festa. E quando este não cumpre a risca seu papel premeditado um mal estar se instala. Seria a morte, como o conto parece propor, o segredo único que nos livra deste ciclo?

Os velhos dos livros de Jorge Amado parecem não concordar. Embora sem a energia que seus passados parecem conter, ainda tem na memória uma alavanca para permanecer socialmente ativos. Nem que seja uma memória inventada como no capitão de longo curso de “ Os Velhos Marinheiros”.

Mas se eu realmente pudesse recomendar um livro a minha amiga, que infelizmente agora não está para leituras, seria sem dúvidas um do Gabriel Garcia Marques. Não, não é “Memórias de Minhas Putas Tristes”, livro fino que fala de um velho que procura ter recuperada sua vida ao dormir com uma jovem. Não, o melhor livro seria “O Amor nos Tempos do Cólera”, cujo início nos faz pensar que veremos apenas mais uma história com personagens velhos, e depois, que leremos sobre um amor ridículo. Mas nada disto é verdade.

“Amor Nos Tempos do Cólera” nos apresenta duas vidas, com grandes toques de realidade, que se encontram e se afastam, vencem e perdem, mas que principalmente não desistem de viver. E que cada momento tem suas decisões, angústias e alegrias que merecem ser inteiramente vívidas.

Rui Carodi

Experiência de leitura: “O pato, a morte e a tulipa”

image

Olhemos uma criança. Ela é pequena, inocente. Queremos protegê-la, não podemos. Nós queremos que ela aprenda tudo,  não sabemos o que ensinar. Não queremos que ela sofra, ela irá sofrer.
Em frente a uma criança percebemos quão impotente somos frente ao futuro, quantas dúvidas vamos carregando durante toda vida. Uma destas dúvidas que nos acompanharão sempre, que nos abala as certezas, que evitamos até pensar e que parece pesada demais para qualquer criança é a existência da morte.
Por isto saber que há um livro corajoso, um livro de poucas páginas, bem ilustrado, com um texto que não ocuparia duas páginas se fosse digitado, pode tanto nos inquietar quanto nos auxiliar.
O pato, a morte e a tulipa do escritor alemão Wolf Erlbruch conta, por meio de uma alegoria, sobre a angustia e sentimento de perda que a morte nos provoca. A história fala do encontro, convivência e amizade entre um pato, que não esta se sentindo bem, e a morte, representada de forma infantil como um esqueleto simpático, durante os últimos dias de vida do pato.
O autor teve muito cuidado em deixar o tema leve, procurando não impor respostas, apenas deixando a história fluir e a contando para que a sintamos, para que nos questionemos. Há uma serenidade raras vezes vemos quando nos deparamos com este tema.
Não há fuga, a convivência com a morte não nos deixa menos triste e, mesmo com a poesia que a imagem da tulipa sobre o pato deslizando sobre o rio que corre, não deixamos de sentir o peso do fim.
Mas é um livro que nos fala mais do que isto. Ela fala de momentos, de um lago que se pode nadar, de uma arvore a subir, de ficar junto sem falar nada, de pensamentos que surgem e vão sem respostas.
Este pequeno livro ao não fugir do assunto da morte acaba nos apresentando uma parte da importância, da beleza da vida. É um livro que talvez seja muito bom para uma criança ler junto com adulto. Para que um adulto admita que também ele tem o mesmo medo de uma criança.

por Rui Carodi

PS.: Gostaria de dedicar este texto a Melissa e Enzo, que recentemente resolveram nascer neste mundo que é tão estranho, tão confuso, mas que vale a pena conhecer.

Experiência de leitura: Harry Potter por um não-fanático

Sentados em nossas cadeiras, encantados com um mundo que nos entedia, precisamos de um pouco de imaginação para sentirmos nossa realidade. E J.K. Rowling nos apresenta Harry Potter.

É tão fácil simpatizarmos com Harry quanto rejeitarmos seus tios, os Durleys, pessoas tão presas ao cotidiano, que repudiam, que literalmente fogem das diferenças, do que pode se tornar especial. É uma experiência comum querer ser especial, querer mudar a vida e ser reconhecido pelo que é. Harry Potter consegue isto, e logo consegue também nossa identificação.

Queremos ver o que ocorrerá com este personagem que vai se revelando um herói de aspectos clássicos, passando por várias fases para aceitar seu papel em seu mundo. Ver como o menino Harry se tornara o mago predestinado a salvar todos. Ver como é a escola de magia Hogwarts como ela prepara para um mundo em que é banal fotos se mexerem e magia existir. Um mundo paralelo ao nosso, como sonhos que já tivemos. Para isto é essencial vermos as pessoas que estão mais próximas dele, que fazem a historia junto com ele.

Fotografia apresentando os sete livros da coleção Harry Potter lado a lado sobre uma mesa.

A Biblioteca possui os sete livros da saga em seu Acervo.

O encontro e o desenvolvimento das relações com Rony, que tem um caráter impulsivo guiado pelos sentimentos, e Hermione, que agindo com a razão tem a busca de conhecimento como direção, tornam este trio de personagens fascinante e eficiente dentro da história.

Suas aproximações, afastamentos, escolhas, conflitos e experiências dão ao leitor de uma maneira efetiva o desenvolvimento por que cada um passa durante a história, ampliando a profundidade com que podemos encarar o enredo. Interessante notar que este trio é ligado também por seus estigmas que os acompanham desde o nascimento. Rony é marcado por sua pobreza; Hermione pelo seu nascimento em uma família não pertencente aquele universo, e Harry pela fama e destino de seus pais.

Estas ligações que evoluem de maneira a solidificarem uma amizade, mostrando-se dinâmicas durante toda a saga a ponto de guiar e influencias as outras formas de relacionamento apresentadas pela autora. Vejamos como exemplo Draco Malfoy, um dos antagonistas de Harry, em cujas relações pessoais, demostra dominação e busca por um superioridade que considera inata e que evolui para a submissão e o caráter solitário e incômodo das relações de poder.

Se esta dualidade Draco x Harry permite o confronto entre amizade e submissão no aspecto pessoal, em um âmbito mais geral, diversas oposições guiam o desenvolvimento narrativo.  Consideremos as duas casas principais apresentadas: enquanto a Sonserina (grupo ao qual pertence a maioria dos antagonistas) é definida  pelo seu apresso aos direitos hereditários e a busca de poder, a Grifinória (casa da maioria dos protagonistas) é definida por sua coragem e ousadia.

Sendo a oposição o elemento que propicia o andamento da história a escolha das características do vilão é fundamental. Lord Voldemort surge neste contexto como uma antítese funcional, coerente e muito bem desenvolvida do herói. Partilha com este características como a falta de família e a descoberta de ser especial, enquanto diverge em aspectos tão fundamentais que chegam a ser quase complementares, como a busca do poder pelo medo, a negação da morte, o uso de qualquer meio para atingir seus fins, a procura pelo isolamento, e a rejeição da história pessoal, que em momentos decisivos são contrastados pelas atitudes tomadas por Harry Potter.

Um elemento narrativo básico que mantém crescente o interesse em toda a obra são as relações que encontramos entre os medos, alegrias, dúvidas, conquistas e decepções de vários personagens e de nós mesmos. As dificuldades de manter amizades, de ser acreditado, de dar os primeiros passos em uma relação romântica, de se sentir só, de lutar para ser aceito, de conseguir uma vitória ou ver seus esforços terminarem em derrota estão bem descritas ali.

Durante a saga, vários personagens permitem ao leitor evocar situações que estiveram presentes durante seu próprio desenvolvimento pessoal. Como não ter conhecido ao menos alguém que tenha algo da arrogância de Snape ou o convencimento vazio do Professor Lockhart? Como não ter visto alguém que se define pela sua estranheza como Luna  Lovegood? E como não sentir um pouco de pena da solidão que esta estranheza provoca?

Vários personagens cativantes são apresentados até o ultimo livro e acrescentam dinamismo à história e fazem querermos aprofundar um pouco mais no entendimento de cada um deles.

Aprofundar-se no entendimento é também uma força motriz durante o desenvolvimento das ações. Para entender seu mundo, para poder agir, Harry deve conhecer, deve procurar sempre os fatos que originaram as situações pelas quais passa. Nisto acaba descobrindo de coisas banais a conhecimentos dolorosos sobre si mesmo e sobre aqueles que idolatra. O mundo dos magos não é plano. E não é a toa, que quase sempre os personagens estão na escola, um espaço de descoberta e um cenário conhecido pelos leitores.

Os leitores de Harry Potter, em especial aqueles que leram a série a medida que os livros foram lançados, puderam senti-lo crescer enquanto eles próprios cresciam, adquiriram experiência juntos, como se um amigo estivesse partilhando sua história com eles. E os mais observadores puderam ver também o desenvolvimento da escrita de J. K Rowling.

A cada livro é notável o progresso que autora alcança. As cenas melhoram, cada livro vai apresentando seu tom e vai crescendo o equilíbrio entre as ações e a descrição das emoções. Mesmo capítulos mais engraçados apresentam outros sentimentos, assim como o humor está presente em momentos mais dramáticos de forma adequada.

Embora possam ser citadas elementos incômodos durante a narrativa, como o uso de deus ex machina (mas, poxa, estamos falando de uma historia de magos), algumas incoerências (onde estão os vira tempos quando….? Se a poção polissuco só dura uma hora então….? Por que a  poção Felix Felicis….?), e os longos diálogos expositivos, J. K. Rowling escreveu uma obra fluida que se torna uma leitura agradável capaz de nos levar a pensar, a procurar razões, a questionar a obra, a nos questionar e questionar nosso entorno. Isso vai depender de como o leitor encarará sua leitura, até onde ele pode e quer ir.

Sentados em nossas cadeiras terminamos de ler as últimas paginas destes sete longos livros. O feitiço foi realizado. As palavras foram ditas. Resta saber o efeito que nos fez.

por Rui Carodi

Resenha – O Caderno Azul

O Caderno Azul, de James A. Levine 

Minha mãe sempre me espancava porque minha resistência era grande demais. A palma vermelha de sua mão batia na minha cara com tal veemência que eu achava que podia quebrar meu pescoço. Antes de uivar de dor desses ataques frequentes, eu tentava reprimir o grito, porque queria fortalecer minha capacidade de morar dentro de mim mesma. Hoje em dia, os golpes não são com a mão de mamãe aberta e vermelha de hena, mas do bater dos quadris dos homens nos meus. Mas minha mãe me treinou bem, porque agora eu vivo dentro de mim.”

O romance de estréia do médico James A. Levine, embora fictício, revela nuances de uma realidade tão sórdida e cruel, que muitas vezes temos a sensação que a personagem extrapola as páginas do livro, dando voz a inúmeras crianças vítimas de exploração sexual.

A narrativa explora o cotidiano de Batuk, indiana que aos 9 anos foi vendida pelo próprio pai como escrava sexual. O destino da criança muda sensivelmente ao ser arrancada do convívio familiar em uma aldeia da Índia, para se submeter a todo tipo de ultraje e humilhação nas ruas de Bombaim, onde a prostituição ocorre escancaradamente.

Abusada física e psicologicamente, a adolescente presencia todo o tipo de miséria humana. Tendo a infância roubada e a existência reduzida a mero objeto de prazer, seu único alento está na posse e na escrita de um caderno azul, um misto de diário e refúgio. Nas páginas do caderno a garota registra com muita sensibilidade seus sonhos, devaneios, pensamentos, lembranças e a percepção de uma realidade difícil, mas suportável, à medida que as ações do cotidiano são revestidas de outros significados.

A delicadeza da capa contrasta com a estória triste, inquietante e repulsiva que se anuncia ao leitor. Confesso que em algumas partes da narrativa foi preciso autocontrole para não abandonar a leitura, não pela qualidade da escrita, mas pela aspereza do conteúdo. É doloroso pensar que um ser humano, sobretudo uma criança, tenha que se submeter aos caprichos de mentes perversas e doentias, e que esses abusos não dilaceram apenas o corpo, mas a alma.

Mas apesar do cenário triste e desolador, é uma história repleta significados belos e sutis, tais como a importância da amizade verdadeira, perceptíveis na cumplicidade que se estabelece entre Batuk e Punnet que compartilham as mesmas dores e sofrimentos, e especialmente o poder da imaginação para combater e afastar os males de uma realidade dura e cruel.

Não é o primeiro relato que aborda a fantasia como válvula de escape ou ponto de fuga em um mundo de horrores, em “A menina que roubava livros”, a leitura foi a “salvação” ou a fórmula encontrada pela personagem para suportar a uma realidade difícil.

A leitura e a escrita podem ser mais do que instrumentos para se adequar ao mundo, às vezes é um meio de fuga saudável, algo em que se apoiar para se manter vivo e lúcido!

Esse é o primeiro romance de James A. Levine, médico americano que em viagem a Ìndia se impressionou com uma jovem prostituta que escrevia absolutamente concentrada em um caderno. A cena o marcou tanto a ponto de escrever “O caderno azul”. 

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

Resenha – Pequenas Epifanias

Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu

“A perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)  – mas a morte é inevitável, e portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS  de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não se ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo – porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER”.


Você pode até não gostar de literatura, mas é improvável não ter tido contato com algum fragmento da obra de Caio Fernando Abreu, jornalista, escritor e por que não dizer poeta do cotidiano? Assim como Clarice Lispector, lidera o número de citações compartilhadas entre os usuários das redes sociais, e sua popularidade cresce à medida que outras gerações se aproximam de suas reflexões, que circulam livremente e amplamente no ciberespaço.

Devo confessar que as narrativas do escritor sempre me comovem, e em “Pequenas epifanias” não foi diferente.  O livro reúne crônicas que datam de 1986 a 1995 e abrange um período delicado da vida do autor, pouco antes de sua prematura morte em 1996. Talvez seja por esse motivo que os relatos refletem tanto a condição existencial do ser humano, as inquietações e as angústias que permeiam a trajetória de vida e o fim iminente: a morte.

Na minha opinião, o título revela a essência contida em todas as crônicas, ou seja, os pequenos “milagres” e “mistérios” do cotidiano, manifestações corriqueiras dotadas de possibilidades de entendimento do ser e da vida. “Epifania é a expressão religiosa empregada para designar uma manifestação divina. Por extensão é o perceber súbito e imediato de uma realidade essencial, uma espécie de iluminação”.

De modo geral, o homem está fadado a sua rotina particular, e a regularidade das ações tende a ocultar ou minimizar o significado das coisas, a descoberta e o entendimento de verdades ocultas em realidades explícitas.

Romântico e delicado, visceral e impiedoso, engraçado e irônico, assim é Caio F. em suas narrativas e talvez o segredo para a construção de textos tão irresistíveis esteja justamente na transição repentina de humores e olhares, mesclando momentos de extrema lucidez e pura divagação.

Ri com a crônica “Deus é naja”. “Estás desempregado? Teu amor sumiu? Calma: sempre pode pintar uma jamanta na esquina”. Humor dark sim, mas é daí?  O importante é não perdê-lo. “[..] esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feio idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada”.

Em “A mais justa das saias” é possível regredir no tempo e vivenciar o período de medo e confusão social com o surgimento da AIDS, a falta de informação que propagava todo o tipo de absurdo e preconceito, ao que o autor desabafa “Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus – a AIDS psicológica. Do corpo, você sabe, tomados certos cuidados, o vírus pode ser mantido à distância. E da mente? Por que uma vez instalados lá, o HTLV-3 não vai acabar com as suas defesas psicológicas, mas com suas emoções, seu gosto de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se”.

Dentre tantas crônicas, um destaque aos “Extremos da paixão” e a problemática do amor, “Pálpebras de neblina” e a desolação da prostituta comparada a descrença no Brasil, “Quando setembro vier” e a invenção de um mundo cor de rosa, “Agostos por dentro” e a consciência de não pertencer a um contexto.

Um livro para ser digerido aos poucos, indicado pra quem gosta de leituras breves, mas não superficiais, um convite ao pensamento e à reflexão da vida e do cotidiano passado, presente e futuro.

Caio Fernando Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, em 1948 e morreu de Aids em Porto Alegre em 1996. Em 1968 mudou-se para São Paulo e começou a trabalhar na grande imprensa. Morou ainda no Rio de Janeiro, Estocolmo e Londres, publicou 11 livros, tendo sido premiado duas vezes com o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Dentre os títulos podemos citar: “Morangos mofados”, “Limite branco”, “O ovo apunhalado”, “Os dragões não conhecem o paraíso”, “Triângulo das águas”, “Pedras de Calcutá”, entre outros.

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.