EXPERIENCIA DE LEITURA: O MENINO MALUQUINHO

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Escrever para crianças não é fácil. E uma das maiores dificuldades é que parece ser muito fácil. Deve-se usar uma linguagem simples, deve-se comunicar bem com outra geração e deve-se lembrar que os adultos responsáveis pelas crianças é que serão os críticos destas histórias. E assim, a maioria dos autores falha, ou por não saber falar com as crianças de uma forma que elas gostem, ou por não convencer os adultos que aquele livro é bom para seus filhos.

Ziraldo Alves Pinto conseguiu escrever vários clássicos infantis, como Flicts, O Menino Marrom, O Planeta Lilás, e principalmente O Menino Maluquinho. A pergunta que fica é então: como Ziraldo conseguiu escrever tão bem para crianças?

Para tentar uma resposta vamos dar uma olhada no mais conhecido livro dele: O Menino Maluquinho.

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Foi publicado em 1980, é narrado em terceira pessoa e fala de um menino normal com ilustrações simples (que uma criança pode copiar ou criar com base nos desenhos). Todo o livro é uma descrição deste menino que tem sua família amigos e problemas comuns. E aí começamos a perceber algumas coisas. O livro só se foca na personalidade e nas relações pessoais do menino, não em suas posses ou pensamentos. Sempre o vemos a uma distancia próxima, mas não demasiadamente intima. A história dele é comum, entretanto não é tratada de forma insignificante ou mesmo sem ser particularizada.

Observe que os pais do menino (não há realmente nomes neste livro, as pessoas são chamadas por suas relações: o pai, a mãe, o professor, etc.) se separaram. Isto é algo comum o suficiente para várias crianças ao menos conhecerem alguém que teve a experiência, mas não é o padrão contado na maioria dos livros. Ou seja, qualquer um pode ser este menino, mas este personagem é impar por si.

Mais um aspecto importante é que as idéias são representadas realmente de forma abstrata. Isto é muito raro, pois exige que o leitor compreenda sobre sentimentos. Ziraldo não subestima a inteligência das crianças, deixando a elas a opção de rir de coisas que provavelmente já escutou ou que quando escutar irá fazê-las recordar o livro.

E, por fim, o maior aspecto que se destaca é que todo o livro é um imenso elogio do encontro da imaginação com a realidade. E sem que uma seja fuga ou antagônica a outra, no livro as duas convivem e servem como alicerces a felicidade da infância e ao desenvolvimento saudável.

O grande segredo que O Menino Maluquinho de Ziraldo conta a quem quer escrever para crianças, ou mesmo conviver com crianças é este: respeitem a imaginação e a inteligência das crianças. Elas já começaram a historia que formara os adultos que serão.

RUI CARODI

 

Experiência de Leitura: A Orelha de Van Gogh

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                Moacir Scliar foi um escritor fabuloso. Nascido em Porto Alegre, de família judia, e formado em medicina com especialização em saúde publica, parece dizer a cada frase que a literatura é uma festa a que todos estão convidados. Você poderá lê-los e aproveitá-los não importando se tens uma bagagem cultural de décadas de erudição ou se aprendeu a ler apenas alguns meses atrás. Tirará deles um grande proveito, pois funcionam como parábolas, fabulas e relatos que parecem esconder em sua simplicidade algumas grandes verdades.

               Seus contos em geral são muito simples e marcantes, e neste “A Orelha de Van Gogh” alcançaram um grau de escritura em que tudo que é narrado é interessante e desperta lembranças. Não é a toa que o uso de personagens arquétipos como o velho, o anão, o príncipe, o ditador, o matemático, etc. e o reconto de narrativas bíblicas e populares se mistura com personagens cotidianos fundindo perfeitamente um mundo fantasioso com a comum vivencia que todos conhecemos.

                 Esta característica acaba tornando suas histórias atemporais e sem caracteristicas locais exageradas. Mesmo em um conto com tema regional como “Marcha do Sol nas Regiões Temperadas”, poderia virar um filme americano ou francês, ou ser adaptada para um mangá ou fumetti sem perder sua essência.

                   Exatamente nisto que esta a grande força destas histórias. Na sua essência contam sobre os grandes temas, os maiores medos, incertezas e decepções que a vida de qualquer pessoa passará de uma forma leve, mas irônica e conseqüente. São pequenos flashes de uma luta enorme do homem com o destino.

                 Assim, sem perder a tristeza, vemos a morte de uma criança recém nascida em “Minuto de silêncio” e nos pegamos a pensar na coincidência que a envolve. Ou vemos um relato bíblico que envolve um povo inteiro pelo ponderar de um homem sobre uma cabra. Ou mesmo no conto que dá nome ao livro toda a cadeia de acontecimentos que envolvem a sobrevivência de uma família é narrada divertidamente por um esquema de um tio trapaceiro. Ou seja, todas as grandes questões estão ali, só dependendo do leitor querer se aprofundar nelas.

                   De minha parte, já havia lido este livro quinze anos atrás (talvez até mais) e fiquei surpreso que sem qualquer esforço me recordava tudo novamente. Como uma história que sempre existiu e que pode sempre ser contada com prazer. Como histórias que a leitura sempre vai estar com você.

RUI CARODI

EXPERIÊNCIA DE LEITURA: O LIVRO AMARELO DO TERMINAL

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É difícil escrever sobre um livro que pessoalmente conseguiu me agradar tanto, mas que sei que apresenta várias características que afastam sua leitura. Vanessa Barbara em seu segundo livro, conseguiu fazer um livro múltiplo e extremamente diferente.

A começar pela escolha do tema. É uma reportagem focada não em um protagonista e, sim, no maior terminal rodoviário da América Latina. A partir disto, várias histórias são contadas. Percorrem a página frequentadores assíduos, motoristas, burocratas, figuras históricas, funcionários, vendedores, anônimos, e a própria narradora.

A narração é complementada ou interrompida por poemas, citações, recortes de jornais, folhetos, etc. Tudo isto ajudando a criar o clima de caos organizado que se encontra no Terminal Tietê.

Além disto o projeto gráfico do livro não é algo a parte. Ele é um elemento importante para a comunicação dos relatos que estão sendo narrados.

A autora é muito competente em apresentar o relato que ela coletou (foram 12 meses só de pesquisa e quase cinco anos até o termino) no momento certo dando coerência mas não tirando totalmente o sentimento de desorganização que se vê em locais muito aglomerados.

O livro apresenta desde uma narração de um incidente envolvendo velhos amigos que se conhecem a tanto tempo que já esqueceram o nome do outro e só sabem o apelido até a historia completa da politica envolvida na construção e manutenção do próprio terminal (usando para isto reportagens de época). Em suma é como um banquete de histórias em que são servidas as mais diversas iguarias para que o próprio leitor possa decidir o que lhe agrada mais.

Eu pessoalmente devo dizer que adorei os capítulos onde a própria Vanessa Barbara é personagem e é contado a interferência da burocracia no trabalho, demonstrando assim como este sistema é estúpido e ineficiente. Outro capitulo interessante é dedicado aos folhetos achados na estação pois dá a ideia da cacofonia cotidiana que lá se encontra.

Um livro belo em vários sentidos que dá ao leitor experiente um sopro de novidade e interesse, mas que depende muito de como o leitor o encara. Exige que haja imersão e imaginação para completar os pedaços de historia que estão escritos. Ou seja, como na vida em que o interesse é que determina quais são narrativas que vai gostar de ouvir.

Rui Carodi.

PS. A foto do livro foi retirada do blog da editora, deste post:  http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=14646

Experiência de Leitura: Como Me Tornei Estúpido de Martin Page

Como Me Tornei Estúpido Martin Page

Como Me Tornei Estúpido
Martin Page

         É fácil simpatizar com Antoine, Protagonista de “Como Me Tornei Estúpido” do autor Martin Page. Ele é um jovem de 25 anos, inteligente e excêntrico, que ainda visita o mesmo medico pediatra de quando era criança e (em uma cena) é carregado no colo por um amigo (talvez a forma do autor de demonstrar que ele é imaturo). Ele tem conhecimentos inúteis em grande quantidade e vários que o leitor também terá, ou ao menos reconhecerá como comuns aos que se dizem intelectuais. Ou seja, ele é um desses personagens relativamente comuns em sitcoms, que poderia ser descrito como gênio deslocado. Até mesmo, sua decisão de eliminar a inteligência, porque esta lhe esta trazendo mais problemas que satisfações, não soará estranha. Ele é um personagem que é agradável de gostar, e isto pode ser um grande problema.

      Este problema não esta nas situações surreais que ele enfrentará por sua decisão. Quando tentará se tornar alcoólatra, quando tentará ingressar num clube de suicidas, quando tentará usar pílulas ou quando tentará ter sucesso no mercado de ações, todas estas situações são engraçadas e lhe fará encontrar personagens muito interessantes e, em sua maioria, cínicos, os quais tornam a representação do mundo real bem evidente. E não chega nem a ser totalmente previsível o desenrolar dos capítulos, visto que em alguns ele consegue o sucesso, ou o fracasso relativo, ou a decepção plena.

         O problema também não esta no desenvolvimento rápido da história e no seu final apressado. Se imaginarmos que no início desta novela, Antoine não poderia considerar a outras pessoas como iguais, o fato de só perceber outra personagem tão excêntrica quanto ele, e começar um relacionamento chega a ser uma decisão boa para demonstrar seu desenvolvimento, embora ainda pareça tão corrido quanto uma sitcom. O autor queria fazer um livro leve, rápido e divertido. Conseguiu com êxito.

         O problema esta no leitor não perceber que aquele agradável personagem é estúpido desde a primeira linha do livro. E, não percebendo isto, não notar que Antoine é uma representação de si próprio, do tipo comum de nossos dias, que foi educado para se achar especial, em um lugar em que ser especial é doloroso.

Rui Carodi

MALDITA MATEMÁTICA

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Stephen Hawking, logo no inicio de “Uma Breve Historia do Tempo”, conta que foi aconselhado a evitar equações em seu livro, pois elas diminuiriam as vendas. Isto demonstra o quanto a matemática pode ser intimidante. Por outro lado, o fato de “Uma Breve História” ser um livro fascinante sobre um assunto como física teórica, que depende quase exclusivamente de raciocínio matemático, e ter sido um dos livros mais vendidos no mundo por cinco anos seguidos (e ainda hoje ser um dos mais populares) também demonstra que pode ser atraente a todos que lhe derem uma chance, bastando para isto estar nas mãos de bons escritores que a entendam bem.

O livro “O Andar do Bêbado” de Leonard Mlodinow é um exemplo de uma boa escrita tornando interessante um assunto complexo. Tratando de temas que são considerados aborrecidos, como probabilidade, estatística, aleatoriedade e caos, Mlodinow tece com exemplos pertinentes e surpreendentes ligações entre a vida cotidiana e o pensamento matemático mais avançado. Impossível ler este livro e não começar a ter um senso crítico sobre a enxurrada de informações “cientificas” que periodicamente recebemos. Os capítulos que tratam da maneira como as informações estatísticas, embora verdadeiras, podem ser manipuladas para garantir um ponto de vista deveriam estar na mente de qualquer um que passe por uma escolha importante como as eleições de um pais, a escolha de um carro ou mesmo torcer por um time.

Mas mesmo que se trate de assuntos que pouco tem a ver com a vida da maioria das pessoas, certos autores conseguem tornar a matemática algo vivo. Simon Singh, em “O Último Teorema de Fermat” entrelaça a biografia de Andrews Wiles, e sua busca pela resolução de um problema de mais de trezentos anos, com a história da matemática desde a época de Pitágoras, e desta forma, lidando unicamente com fatos comprovados e verdadeiros, é criado um romance com duelo, traição, suicídios, insanidade e outros assuntos que revelam o lado humano desta ciência conhecida pelo lado lógico.

Mas ao falar do lado humano da matemática encontramos uma das historias mais controversas já registradas, e Jason Sócrates Bardi, utilizando uma quantidade impressionante de documentos da época, conta em “A Guerra do Calculo” a disputa entre dois gênios, Newton e Leibniz, pela autoria de uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento do pensamento humano. Este livro pode ser lido como um belo romance sobre rivalidade, inveja, oportunismo e outras sentimentos muito negativos que não gostamos de admitir que pessoas racionais sejam capazes. É tanto uma boa leitura para quem conhecer o ambiente intelectual do século dezoito, quanto para quem espera encontrar personagens interessantes e cheios de nuances.

Se os livros anteriores podem ser lidos como romances, Ian Stewart escreveu um livro que pode ser lido como um conjunto de contos. “17 Equações que mudaram o mundo” descreve e explica a importância de formulas matemáticas sem nunca desprezar a inteligência do leitor Alem de demonstrar como a matemática esta presente em todos os procedimentos cotidianos, o autor ao destrinchar as formulas acaba tornando familiares conceitos que vários de nos poderíamos considerar assustadores. Particularmente interessante é o capitulo sobre a equação de Black-Scholes, que levada como uma verdade universal e usada sem critérios levou a maior queda da bolsa de valores deste século.

Para fechar esta pequena lista, não posso deixar de citar um livro infantil. “O Homem que Calculava” de Malba Tahan. Unindo uma imaginação fortíssima a exemplos do uso do raciocínio lógico é impossível não despertar interesse no aprendizado da matemática. É um livro que faz o deveria ser o objetivo de todo adulto que quer a atenção de uma criança, ele respeita o seu mundo e acrescenta mais elementos para que a criança possa expandi-lo.

Todos estes livros listados neste texto estão na biblioteca da Unesp, apenas esperando para provar que a matemática não foi feita para humilhar ninguém. Ao contrario pode evitar vários problemas em sua vida. A matemática acaba sendo como os melhores amantes que quanto maior o conhecimento mais interessante fica.

Rui Carodi

Experiência de Leitura. A ESTRADA de Cormac McCarthy.

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Capa do Exemplar da Biblioteca.

Há centenas de formas de escrever sobre as relações entre pais e filhos. Se enfocarmos mais o lado dos pais alguns sentimentos parecem ser constantes como: a insegurança por não saber se o que esta fazendo é o mais correto;  o sentimento de proteção ao filho;  as pequenas alegrias que ocorrem quando a experiência é útil em alguns momentos; a incerteza constante quanto ao futuro e ao preparo que esta dando a sua cria.

Cormac McCarthy (autor arredio, muito conhecido por suas histórias secas ambientadas no oeste americano como Meridiano de Sangue e Onde Os Fracos Não Tem Vez) decidiu contar uma história assim, e para contá-la resolveu criar um romance de sobrevivência impactante em um ambiente devastado, povoado por criaturas canibais (Zumbis? Vampiros? Homens desesperados? Pouco importa, são os outros, os inimigos.)  e provou mais uma vez que seus poucos livros o colocam com folga entre os melhores escritores dos Estados Unidos.

Na história, encontramos um homem e seu filho já cansados de uma longa viagem na qual levam todos seus pertences em um carrinho de supermercado, penosamente sendo empurrado por estradas desertas, em um mundo despovoado, destruído por uma grande tragédia. Nunca temos detalhes sobre o quê, quando, ou mesmo porquê este desastre aconteceu, mas fica claro que tudo é obra de atos humanos.

O pai é um homem rústico, descrito como de certa idade e dando a entender que envelhecido prematuramente devido ás circunstâncias, enquanto o filho é uma menino, jovem demais para ser realmente útil nos esforços mas com discernimento para entender a situação que estão. Os diálogos entre estes personagens são raros e soariam banais em outras circunstâncias, porem o autor é hábil em não desperdiçar o peso dramático de cada fala. Desta forma, sem forçar para o sentimentalismo, palavras e ações de cada interação destes personagens fazem o leitor entender a importância desta relação familiar.

Gostaria de citar duas passagens onde isto ocorre. Na primeira, o pai consegue preparar uma espécie de cozido com cogumelos e, junto com o filho, acabam tendo a refeição daquele dia. É algo pobre e difícil de engolir, mas é o melhor que se consegue fazer e eles só podem passar juntos por isto. Na segunda, uma lata de Coca-Cola, talvez a última do mundo, é encontrada e o pai insiste que o filho a beba, para que tenha esta experiência que ele mesmo teve.

Nesta jornada, em que a incerteza e o perigo são constantes e as perdas são inevitáveis , a esperança é débil mas é a única coisa que ainda faz a trajetória possível. O autor conseguiu escrever um belo livro, que pode servir de metáfora a vários aspectos dos relacionamentos familiares e até sociais, sem ter uma situação inútil, sem que nem uma emoção precise ser citada para que o leitor a entenda.  Cormac McCarthy escreveu um livro que  acompanhará o leitor disposto a se indagar constantemente em suas relações pessoais. Cormac McCarthy conseguiu escrever uma obra prima, em que nada sobra ou nada falta. Um livro que se renova a cada leitura e deve ser sempre recomendado.

Por Rui Carodi.

Experiência de Leitura: O Pirotécnico Zacarias

Aos dez anos, sem que no momento percebesse, recebi um spoiler do restante de minha vida. E da mesma forma de quando vemos um filme que já sabemos detalhes apenas quando os acontecimentos que já conhecia chegaram pude compreendê-los. O autor destas revelações foi um escritor esquecido mas com um talento do qual cada linha, cada frase, pesaram profundamente em todos os que se dispuseram a entendê-lo: Murilo Rubião.

Um livro para adolescentes que ficarão encantados e assombrados com suas fantasias. Um livro de apenas oito contos, menos de 70 páginas contendo dragões, mágicos, mortos que vivem, cidades assombradas, entre outras coisas fantasiosas que sob uma roupagem de conto de fadas revela um lado terrível da vida. Isto é o que é mostrado em “O Pirotécnico Zacarias”.

Porque quando jovens, ao conhecermos algo como o fofo animalzinho de “Teleco, o coelhinho” que após exigir um cigarro docemente observa o mar, é impossível não se interessar tanto pela estranheza quanto pelo carisma desta história. Somente anos depois, quando nós mesmos já houvermos passado por várias transformações, percebemos a lógica dos vários animais nos quais Teleco se transforma, e a de sua morte, como um farrapo de criança, uma tragédia pela qual todos passamos.

E qualquer um que já tenha tido um talento em alguma época vai se identificar com a desilusão do “Ex-mágico da Taberna Minhota”. Quando tudo era possível o mundo é o tédio no qual até mesmo as feras preferem ser devoradas a persistir existindo. Mas a solução única que se apresenta é mergulhar neste tédio, que mata até magia que torna tudo possível bem no momento em que ela mais seria necessária.

Dos vários aspectos que este pequeno livro, que vivo a reler, vai apresentando as perdas são as constantes mais dolorosas que se apresentam. O homem velho e cego, que com a lembrança de sua amada retorna a juventude, ao perdê-la novamente também perde a visão e a esperança.

O que falar do próprio conto que dá o titulo ao livro? É a historia de um morto narrada por si mesmo. E na sua descrição passamos a nos perguntar até que ponto nós vivemos, como aproveitamos nossa vida ou apenas agregamos conhecimento inútil para realizar coisas inúteis. Até onde nossa vida é realmente uma vida a ser aproveitada?

Ao ler este texto percebo que ele está se tornando amargo e talvez esteja afastando algum possível leitor. É um erro. Sim, é um livro com personagens em sua maioria solitários e desiludidos, mas é também um livro fantástico que mostra como o fantástico é imprescindível para a vida. Uma coletânea de contos em que a realidade fantástica demonstra o quanto um pouco de imaginação ajuda a entender a vida e a vivê-la.

Rui Carodi

Experiência de Leitura – Eu sou a lenda

Richard Matheson - Eu sou a lenda (Editora Francisco Alves, Coleção Mestres do Horror e da Fantasia)

Eles estão por todos os lugares. Séries de televisão, quadrinhos, livros, filmes e vários outros meios foram invadidos por zumbis. Mas o início dessa invasão é bem antiga.

Em 1954, escrevendo sobre o distante futuro de 1976, Richard Matheson dá, em forma de livro, um aspecto novo aos nossos medos. Uma doença incontrolável que torna toda humanidade uma legião de predadores irracionais em busca de… sangue. Sim, todo o conceito de invasão zumbi começa como uma história de vampiros.

Robert Neville, nosso protagonista, é o único ser humano não contaminado por uma doença bacteriana que, após uma série de guerras, contamina todos os homens. Durante a primeira parte vemos sua luta para sobreviver e entender todo este novo mundo, onde ele só pode encontrar inimigos e cada ato dele é uma forma desesperada de manter suas esperanças. É muito tentador, nesta parte, traçar paralelos entre os atos extremos do personagem e os nossos atos cotidianos. Um exemplo é a forma como ele vai tornando sua casa um refúgio cada vez mais seguro, mas o medo chega até seus ouvidos constantemente vindo dos monstros que estão nas ruas. Olhar para as próprias janelas e ver as grades, olhar para os muros e perceber o quanto nós nos rodeamos por cercas elétricas, deixa conosco a impressão de que este medo do resto de uma humanidade incompreensível já esta em nós.

Neste sentido nossa empatia com Neville chega ao máximo quando lemos o relato detalhado de como toda a aproximação com um pequeno cachorro, único ser naquele momento que poderia lhe fazer alguma companhia, é frustrada com a morte lenta deste animal.
Mas o romance não se detêm a isso. Vemos a evolução destes novos seres, como vemos a evolução de um parasita bacteriano. A irracionalidade dos primeiros infectados não é permanente e vemos surgir uma nova sociedade. E esta sociedade de monstros também tem suas regras, suas crenças e seus próprios medos. E Robert Neville terá que descobrir isto.

Uma história curta, que possibilita diversas leituras e que ao terminarmos a leitura será quase inevitável que nos façamos a pergunta: “Por que os produtores de cinema tem que estragar uma história tão boa?”.

Experiência de Leitura – A Humilhação

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Você já sabe o que vai acontecer. Nas primeiras páginas, há uma solução para o Simon Axler, mas é tão difícil aceitá-la que precisamos ver seus pensamentos para não fugir. Nosso personagem perdeu o que lhe causava orgulho, as coisas que podiam mantê-lo humano aos próprios olhos.

Nós, leitores, em algum momento tivemos as dúvidas e os sentimentos que o romance A Humilhação descrevem para seu protagonista. Mas, sempre tivemos alguma esperança, algo que no futuro poderíamos conseguir. Simon chegou a uma fase de sua vida em que não lhe é mais possível esta possibilidade.

Aos sessenta e cinco anos, consagrado como ator, perde a capacidade de atuar. Nossa identificação é fácil, ocupando nossas profissões tentamos parecer com a imagem que fazemos de nós mesmos. Procuramos em nossas vidas pessoais sermos os melhores nas atividades de cada papel que socialmente ocupamos, frequentemente nos preocupamos se realmente somos bons, se não conseguiríamos sermos melhores ou tão bom como pensávamos que éramos. Às vezes, como Simon, temos a certeza de que não e nada do que ele procure fazer poder retirar dele esta certeza.

Mas, o autor Philip Roth é muito hábil em demonstrar quanto humano, quanto universal e banal que estes tormentos são. Ele não se deixa entrar em mares de autopiedade, e apresenta personagens que são bem mais velhos e não sofrem com esta angustia (como o editor de Simon). Além de apresentar uma tragédia maior com outra personagem, cuja história se desenvolve na narrativa tanto quanto complemento como comparação. A história de Sybil Van Buren, que viu ou acredita ter visto uma violência sexual com sua filha de quatro anos, é algo que não poderá ser esquecido embora seja tratada em tão poucas páginas e com tão poucos pontos em comum com história principal.

Quem já conheceu o autor em seu primeiro romance (Complexo de Portenoy) e, como eu, não acompanhou seu percurso literário, vai sentir falta do humor, de certa leveza, neste livro. Porém não poderá negar que o talento se aprimorou e a capacidade de descrever situações se tornou algo próximo do sublime. Todos relacionamentos de Simon, a separação com sua mulher, a complicada relação com a professora lésbica Pegen, são detalhados sem nunca se soarem falsos, com palavras precisas e sem excessos. Por sinal, toda a narração que envolve Pegen, desde a história pessoal antes de conhecer Simon até sua despedida, a tornam tão real que não é necessário explicar seus motivos. Nós os entendemos, pois conseguimos pensar como ela.

Perto do final do romance temos uma brilhante descrição de uma fantasia sexual constante do universo masculino sendo realizada. O autor não nos poupa da realidade de que esta fantasia não é libertadora, e de que, no fundo, ela é triste, sendo resultado de nossa impotência humana.

Um excelente livro, curto e cruel.  Leiam com cuidado e tenham algum plano para poder se divertir depois.

por Rui Carodi

A Polaquinha – Recomendado por Patrícia Lima

A Polaquinha, de Dalton Trevisan

Polaquinha, moça pobre, de vida difícil, bonita e, por isso, muito cobiçada pelos homens. Não se trata de uma história de amor, pelo menos não de uma história romântica. Pode-se dizer que é uma história da procura intensa por amor e completude, que se dá principalmente através da busca desenfreada do prazer erótico.

Capa da edição da Record Foto: www.candido.bpp.pr.gov.br

Capa da edição da Record Foto: http://www.candido.bpp.pr.gov.br

A trama inicia-se na adolescência da protagonista, onde se dá sua iniciação sexual. O apelido Polaquinha surge pelo fato da moça ser loira, e este é um dos maiores atrativos para os homens com quem se relaciona. O fato da moça não ter nome é uma maneira de despersonalizar o sujeito, reduzindo-o a um simples atributo físico.

Meio a curiosidades da idade e desejos de descoberta, ela se entrega a João: rapaz magro, feio, com problemas respiratórios – o oposto do príncipe encantado padrão. Esse personagem nos insere no mundo machista que irá rondar a protagonista até o fim da obra. João, entre muitas agressões e desconfianças típicas do pensamento patriarcal, tira a virgindade de Polaquinha, para logo em seguida abandoná-la e deixá-la em contínua saudade.

Seu segundo relacionamento se dá com Tito, talvez o homem que lhe daria mais respeito, que realmente viria a lhe querer bem. Ainda assim, casado e com filho (o respeito dos homens em relação à protagonista parece nunca vir de maneira plena). Com ele tem sua segunda experiência sexual, mas não consegue chegar ao limite do prazer.

A ruptura da vida de adolescente para a adulta viria com Nando, para quem se entregaria de maneira completa. Nessa intensa busca pelo prazer, observamos a intenção de Trevisan em nos fazer embarcar neste trem de redenção e perdição que pode ser a entrega total de uma mulher. Polaquinha “perde” quatro anos de sua vida (como viria a falar mais tarde) com Nando, entre prazeres, conforto emocional, desconfianças e brigas.

As frequentes humilhações pelas quais a personagem passa nos mostram que quando a mulher atreve-se a assumir um comportamento transgressor numa sociedade extremamente machista – fugindo das convenções repressoras invariavelmente impostas – pode ser obrigada a enfrentar outro lado da violência: a verbal e física que lhe são dirigidas.

A escrita de Trevisan consegue dimensionar o sofrimento – às vezes inconsciente – desta mulher que já não sabe por que, mas aceita com resignação os abusos que lhe são dirigidos. Fica muito clara essa passividade no último relacionamento de Polaquinha – com um motorista de ônibus chamado Pedro. Homem de “conversa mole”, o famoso conquistador, também é casado e tem filhos. Não se intimida com a presença da amante meio a outros flertes. A sina de Polaquinha é ser vítima (ou não, depende muito da interpretação) do machismo que formou a personalidade de seus pares. E aceitar isso até o limite psicológico e físico.

Os últimos sete capítulos da obra são extremamente interessantes, para não dizer geniais. Cabe dizer aqui – para não estragar a curiosidade de quem ainda não leu – que a história de Polaquinha tem um fim gradual, no qual o leitor insere-se inteiramente através de uma ambientação profundamente realista.     É aí que encontramos a definição do escritor: um profundo esmiuçador da realidade crua.

O livro, publicado em 1985, foi o primeiro e último romance escrito pelo conhecido contista Dalton Trevisan, e sua leitura é válida ainda hoje, pois, como sabemos, apesar de uma relevante evolução social nos últimos vinte e oito anos, os valores patriarcais e machistas ainda permeiam a sociedade brasileira. Vale a pena também conhecer o estilo de Trevisan, que traz à tona questões bastante profundas, apesar de sua escrita enxuta. Não a confundam com escrita preguiçosa. O escritor consegue trabalhar a linguagem de uma maneira totalmente inovadora, dizendo muito com poucas palavras, além de inverter a ordem das orações e instigar a inteligência do leitor com trechos de complexa interpretação. A obra tem traços extremamente eróticos, que podem parecer absurdos para um leitor de moralismo desavisado, mas é exatamente na pena artística do mestre que encontramos a transformação do que poderia ser taxado de vulgar em uma moldura artística que deixa marcas de encantamento, melancolia e compreensão humana naqueles que se atrevem a degustá-la.

por Patricia Lima

Patrícia é funcionária da seção de RH da FAAC, estudou Biologia na FC e Linguagem, Cultura e Mídia na FAAC e foi nossa leitora do mês de Fevereiro.

Leu um livro da Biblioteca e gostaria de recomendá-lo aqui no blog? Mande um e-mail para camila@bauru.unesp.br.