Experiência de Leitura – Eu sou a lenda

Richard Matheson - Eu sou a lenda (Editora Francisco Alves, Coleção Mestres do Horror e da Fantasia)

Eles estão por todos os lugares. Séries de televisão, quadrinhos, livros, filmes e vários outros meios foram invadidos por zumbis. Mas o início dessa invasão é bem antiga.

Em 1954, escrevendo sobre o distante futuro de 1976, Richard Matheson dá, em forma de livro, um aspecto novo aos nossos medos. Uma doença incontrolável que torna toda humanidade uma legião de predadores irracionais em busca de… sangue. Sim, todo o conceito de invasão zumbi começa como uma história de vampiros.

Robert Neville, nosso protagonista, é o único ser humano não contaminado por uma doença bacteriana que, após uma série de guerras, contamina todos os homens. Durante a primeira parte vemos sua luta para sobreviver e entender todo este novo mundo, onde ele só pode encontrar inimigos e cada ato dele é uma forma desesperada de manter suas esperanças. É muito tentador, nesta parte, traçar paralelos entre os atos extremos do personagem e os nossos atos cotidianos. Um exemplo é a forma como ele vai tornando sua casa um refúgio cada vez mais seguro, mas o medo chega até seus ouvidos constantemente vindo dos monstros que estão nas ruas. Olhar para as próprias janelas e ver as grades, olhar para os muros e perceber o quanto nós nos rodeamos por cercas elétricas, deixa conosco a impressão de que este medo do resto de uma humanidade incompreensível já esta em nós.

Neste sentido nossa empatia com Neville chega ao máximo quando lemos o relato detalhado de como toda a aproximação com um pequeno cachorro, único ser naquele momento que poderia lhe fazer alguma companhia, é frustrada com a morte lenta deste animal.
Mas o romance não se detêm a isso. Vemos a evolução destes novos seres, como vemos a evolução de um parasita bacteriano. A irracionalidade dos primeiros infectados não é permanente e vemos surgir uma nova sociedade. E esta sociedade de monstros também tem suas regras, suas crenças e seus próprios medos. E Robert Neville terá que descobrir isto.

Uma história curta, que possibilita diversas leituras e que ao terminarmos a leitura será quase inevitável que nos façamos a pergunta: “Por que os produtores de cinema tem que estragar uma história tão boa?”.

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Experiência de Leitura – A Humilhação

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Você já sabe o que vai acontecer. Nas primeiras páginas, há uma solução para o Simon Axler, mas é tão difícil aceitá-la que precisamos ver seus pensamentos para não fugir. Nosso personagem perdeu o que lhe causava orgulho, as coisas que podiam mantê-lo humano aos próprios olhos.

Nós, leitores, em algum momento tivemos as dúvidas e os sentimentos que o romance A Humilhação descrevem para seu protagonista. Mas, sempre tivemos alguma esperança, algo que no futuro poderíamos conseguir. Simon chegou a uma fase de sua vida em que não lhe é mais possível esta possibilidade.

Aos sessenta e cinco anos, consagrado como ator, perde a capacidade de atuar. Nossa identificação é fácil, ocupando nossas profissões tentamos parecer com a imagem que fazemos de nós mesmos. Procuramos em nossas vidas pessoais sermos os melhores nas atividades de cada papel que socialmente ocupamos, frequentemente nos preocupamos se realmente somos bons, se não conseguiríamos sermos melhores ou tão bom como pensávamos que éramos. Às vezes, como Simon, temos a certeza de que não e nada do que ele procure fazer poder retirar dele esta certeza.

Mas, o autor Philip Roth é muito hábil em demonstrar quanto humano, quanto universal e banal que estes tormentos são. Ele não se deixa entrar em mares de autopiedade, e apresenta personagens que são bem mais velhos e não sofrem com esta angustia (como o editor de Simon). Além de apresentar uma tragédia maior com outra personagem, cuja história se desenvolve na narrativa tanto quanto complemento como comparação. A história de Sybil Van Buren, que viu ou acredita ter visto uma violência sexual com sua filha de quatro anos, é algo que não poderá ser esquecido embora seja tratada em tão poucas páginas e com tão poucos pontos em comum com história principal.

Quem já conheceu o autor em seu primeiro romance (Complexo de Portenoy) e, como eu, não acompanhou seu percurso literário, vai sentir falta do humor, de certa leveza, neste livro. Porém não poderá negar que o talento se aprimorou e a capacidade de descrever situações se tornou algo próximo do sublime. Todos relacionamentos de Simon, a separação com sua mulher, a complicada relação com a professora lésbica Pegen, são detalhados sem nunca se soarem falsos, com palavras precisas e sem excessos. Por sinal, toda a narração que envolve Pegen, desde a história pessoal antes de conhecer Simon até sua despedida, a tornam tão real que não é necessário explicar seus motivos. Nós os entendemos, pois conseguimos pensar como ela.

Perto do final do romance temos uma brilhante descrição de uma fantasia sexual constante do universo masculino sendo realizada. O autor não nos poupa da realidade de que esta fantasia não é libertadora, e de que, no fundo, ela é triste, sendo resultado de nossa impotência humana.

Um excelente livro, curto e cruel.  Leiam com cuidado e tenham algum plano para poder se divertir depois.

por Rui Carodi

A Polaquinha – Recomendado por Patrícia Lima

A Polaquinha, de Dalton Trevisan

Polaquinha, moça pobre, de vida difícil, bonita e, por isso, muito cobiçada pelos homens. Não se trata de uma história de amor, pelo menos não de uma história romântica. Pode-se dizer que é uma história da procura intensa por amor e completude, que se dá principalmente através da busca desenfreada do prazer erótico.

Capa da edição da Record Foto: www.candido.bpp.pr.gov.br

Capa da edição da Record Foto: http://www.candido.bpp.pr.gov.br

A trama inicia-se na adolescência da protagonista, onde se dá sua iniciação sexual. O apelido Polaquinha surge pelo fato da moça ser loira, e este é um dos maiores atrativos para os homens com quem se relaciona. O fato da moça não ter nome é uma maneira de despersonalizar o sujeito, reduzindo-o a um simples atributo físico.

Meio a curiosidades da idade e desejos de descoberta, ela se entrega a João: rapaz magro, feio, com problemas respiratórios – o oposto do príncipe encantado padrão. Esse personagem nos insere no mundo machista que irá rondar a protagonista até o fim da obra. João, entre muitas agressões e desconfianças típicas do pensamento patriarcal, tira a virgindade de Polaquinha, para logo em seguida abandoná-la e deixá-la em contínua saudade.

Seu segundo relacionamento se dá com Tito, talvez o homem que lhe daria mais respeito, que realmente viria a lhe querer bem. Ainda assim, casado e com filho (o respeito dos homens em relação à protagonista parece nunca vir de maneira plena). Com ele tem sua segunda experiência sexual, mas não consegue chegar ao limite do prazer.

A ruptura da vida de adolescente para a adulta viria com Nando, para quem se entregaria de maneira completa. Nessa intensa busca pelo prazer, observamos a intenção de Trevisan em nos fazer embarcar neste trem de redenção e perdição que pode ser a entrega total de uma mulher. Polaquinha “perde” quatro anos de sua vida (como viria a falar mais tarde) com Nando, entre prazeres, conforto emocional, desconfianças e brigas.

As frequentes humilhações pelas quais a personagem passa nos mostram que quando a mulher atreve-se a assumir um comportamento transgressor numa sociedade extremamente machista – fugindo das convenções repressoras invariavelmente impostas – pode ser obrigada a enfrentar outro lado da violência: a verbal e física que lhe são dirigidas.

A escrita de Trevisan consegue dimensionar o sofrimento – às vezes inconsciente – desta mulher que já não sabe por que, mas aceita com resignação os abusos que lhe são dirigidos. Fica muito clara essa passividade no último relacionamento de Polaquinha – com um motorista de ônibus chamado Pedro. Homem de “conversa mole”, o famoso conquistador, também é casado e tem filhos. Não se intimida com a presença da amante meio a outros flertes. A sina de Polaquinha é ser vítima (ou não, depende muito da interpretação) do machismo que formou a personalidade de seus pares. E aceitar isso até o limite psicológico e físico.

Os últimos sete capítulos da obra são extremamente interessantes, para não dizer geniais. Cabe dizer aqui – para não estragar a curiosidade de quem ainda não leu – que a história de Polaquinha tem um fim gradual, no qual o leitor insere-se inteiramente através de uma ambientação profundamente realista.     É aí que encontramos a definição do escritor: um profundo esmiuçador da realidade crua.

O livro, publicado em 1985, foi o primeiro e último romance escrito pelo conhecido contista Dalton Trevisan, e sua leitura é válida ainda hoje, pois, como sabemos, apesar de uma relevante evolução social nos últimos vinte e oito anos, os valores patriarcais e machistas ainda permeiam a sociedade brasileira. Vale a pena também conhecer o estilo de Trevisan, que traz à tona questões bastante profundas, apesar de sua escrita enxuta. Não a confundam com escrita preguiçosa. O escritor consegue trabalhar a linguagem de uma maneira totalmente inovadora, dizendo muito com poucas palavras, além de inverter a ordem das orações e instigar a inteligência do leitor com trechos de complexa interpretação. A obra tem traços extremamente eróticos, que podem parecer absurdos para um leitor de moralismo desavisado, mas é exatamente na pena artística do mestre que encontramos a transformação do que poderia ser taxado de vulgar em uma moldura artística que deixa marcas de encantamento, melancolia e compreensão humana naqueles que se atrevem a degustá-la.

por Patricia Lima

Patrícia é funcionária da seção de RH da FAAC, estudou Biologia na FC e Linguagem, Cultura e Mídia na FAAC e foi nossa leitora do mês de Fevereiro.

Leu um livro da Biblioteca e gostaria de recomendá-lo aqui no blog? Mande um e-mail para camila@bauru.unesp.br.

Experiência de Leitura – Razão e Sensibilidade

Por que ler um livro escrito há duzentos anos falando sobre mocinhas do interior da Inglaterra?  Por que ler um livro em que quase nada acontece, um romance que não descreve um único beijo, sequer um abraço, e que após mais de duzentas páginas as personagens principais simplesmente se casam?

Porque, após conseguirmos nos adaptar ao ritmo no qual a leitura se torna agradável, percebemos que estamos diante de um grande livro, cuja escritora era uma observadora que encontrou em seu tempo coisas que nos acompanham até hoje.

Não há nenhuma página em Razão e Sensibilidade em que não seja possível encontrar uma observação de Jane Austen sobre algum aspecto psicossocial escrito de forma fina, muitas vezes irônica. É muito instrutivo ler o segundo capítulo quando o meio-irmão das protagonistas e sua esposa discutem sobre entre a obrigação com as filhas de seu pai e os seus próprios interesses. Nos faz imaginar quantas vezes argumentos similares são utilizados em proveito próprio.

Razão e Sensibilida estará disponível no acervo em junho.

Razão e Sensibilida estará disponível no acervo em junho.

As heroínas de Jane Austen são mulheres típicas do período romântico: elas não agem, elas reagem a uma situação. Assim é essencial percebermos tanto as semelhanças quanto as diferenças de personalidade e de situações que enfrentam as irmãs Dashwood.

Mariane, a irmã mais nova, descrita como mais impulsiva e sentimental, demonstra durante o romance as ações que são acompanhadas de perto pelos outros personagens. Suas alegrias e sofrimentos, desde o inicio do romance com John Willoughby até a pérola de cafajestice que é a carta que este lhe envia e suas consequências, são públicas, provocando  comentários e ações dos que estão ao seu redor.

Como contraponto, a irmã mais velha, Elinor, descrita como mais racional e sempre preocupada com as reações que possa provocar, sofre uma situação similar – se apaixonar por um homem, que já esta comprometido, e ver esta paixão impedida pelas circunstâncias – mas somente sabemos disto pelas descrições da autora e por atos que acabam por reforçar seu sofrimento e sua personalidade, como, por exemplo, a confidência de sua rival.

Em torno destas tramas básicas, vemos surgir personagens que embora possam não ter uma complexidade grande, jamais são planos, com ações e pensamentos que combinam com seu modo de ser e agir. Todos típicos representantes da classe média, são pessoas com personalidade que facilmente poderíamos encontrar em nossa vida social: a mulher que procura espalhar histórias, o marido com um único assunto, a mãe que se afeiçoa demais aos filhos, o homem egoísta que se justifica internamente, etc.

Além disto, esses personagens secundários com suas motivações e características têm uma função fundamental na trama. A persistência e insegurança do Coronel Brandon em se apaixonar por uma mulher mais jovem; a esperteza e oportunismo de Lucy Steele em trocar de amores; a preocupação e o egoísmo de Fanny Dashwood em beneficiar seu filho; e vários outros personagens são narrados com muita precisão, com a dose certa de ironia e tornam o romance algo vivo, no qual adentramos com o espírito de sua época, permitindo compreender as ações de cada personagem.

Por fim, esta leitura é um convite. Um convite para pensarmos no nosso agir e na nossa forma de amar; e também um convite (por que não?) a amarmos com menos preconceitos.

Experiência de leitura: “O pato, a morte e a tulipa”

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Olhemos uma criança. Ela é pequena, inocente. Queremos protegê-la, não podemos. Nós queremos que ela aprenda tudo,  não sabemos o que ensinar. Não queremos que ela sofra, ela irá sofrer.
Em frente a uma criança percebemos quão impotente somos frente ao futuro, quantas dúvidas vamos carregando durante toda vida. Uma destas dúvidas que nos acompanharão sempre, que nos abala as certezas, que evitamos até pensar e que parece pesada demais para qualquer criança é a existência da morte.
Por isto saber que há um livro corajoso, um livro de poucas páginas, bem ilustrado, com um texto que não ocuparia duas páginas se fosse digitado, pode tanto nos inquietar quanto nos auxiliar.
O pato, a morte e a tulipa do escritor alemão Wolf Erlbruch conta, por meio de uma alegoria, sobre a angustia e sentimento de perda que a morte nos provoca. A história fala do encontro, convivência e amizade entre um pato, que não esta se sentindo bem, e a morte, representada de forma infantil como um esqueleto simpático, durante os últimos dias de vida do pato.
O autor teve muito cuidado em deixar o tema leve, procurando não impor respostas, apenas deixando a história fluir e a contando para que a sintamos, para que nos questionemos. Há uma serenidade raras vezes vemos quando nos deparamos com este tema.
Não há fuga, a convivência com a morte não nos deixa menos triste e, mesmo com a poesia que a imagem da tulipa sobre o pato deslizando sobre o rio que corre, não deixamos de sentir o peso do fim.
Mas é um livro que nos fala mais do que isto. Ela fala de momentos, de um lago que se pode nadar, de uma arvore a subir, de ficar junto sem falar nada, de pensamentos que surgem e vão sem respostas.
Este pequeno livro ao não fugir do assunto da morte acaba nos apresentando uma parte da importância, da beleza da vida. É um livro que talvez seja muito bom para uma criança ler junto com adulto. Para que um adulto admita que também ele tem o mesmo medo de uma criança.

por Rui Carodi

PS.: Gostaria de dedicar este texto a Melissa e Enzo, que recentemente resolveram nascer neste mundo que é tão estranho, tão confuso, mas que vale a pena conhecer.

Experiência de leitura: Harry Potter por um não-fanático

Sentados em nossas cadeiras, encantados com um mundo que nos entedia, precisamos de um pouco de imaginação para sentirmos nossa realidade. E J.K. Rowling nos apresenta Harry Potter.

É tão fácil simpatizarmos com Harry quanto rejeitarmos seus tios, os Durleys, pessoas tão presas ao cotidiano, que repudiam, que literalmente fogem das diferenças, do que pode se tornar especial. É uma experiência comum querer ser especial, querer mudar a vida e ser reconhecido pelo que é. Harry Potter consegue isto, e logo consegue também nossa identificação.

Queremos ver o que ocorrerá com este personagem que vai se revelando um herói de aspectos clássicos, passando por várias fases para aceitar seu papel em seu mundo. Ver como o menino Harry se tornara o mago predestinado a salvar todos. Ver como é a escola de magia Hogwarts como ela prepara para um mundo em que é banal fotos se mexerem e magia existir. Um mundo paralelo ao nosso, como sonhos que já tivemos. Para isto é essencial vermos as pessoas que estão mais próximas dele, que fazem a historia junto com ele.

Fotografia apresentando os sete livros da coleção Harry Potter lado a lado sobre uma mesa.

A Biblioteca possui os sete livros da saga em seu Acervo.

O encontro e o desenvolvimento das relações com Rony, que tem um caráter impulsivo guiado pelos sentimentos, e Hermione, que agindo com a razão tem a busca de conhecimento como direção, tornam este trio de personagens fascinante e eficiente dentro da história.

Suas aproximações, afastamentos, escolhas, conflitos e experiências dão ao leitor de uma maneira efetiva o desenvolvimento por que cada um passa durante a história, ampliando a profundidade com que podemos encarar o enredo. Interessante notar que este trio é ligado também por seus estigmas que os acompanham desde o nascimento. Rony é marcado por sua pobreza; Hermione pelo seu nascimento em uma família não pertencente aquele universo, e Harry pela fama e destino de seus pais.

Estas ligações que evoluem de maneira a solidificarem uma amizade, mostrando-se dinâmicas durante toda a saga a ponto de guiar e influencias as outras formas de relacionamento apresentadas pela autora. Vejamos como exemplo Draco Malfoy, um dos antagonistas de Harry, em cujas relações pessoais, demostra dominação e busca por um superioridade que considera inata e que evolui para a submissão e o caráter solitário e incômodo das relações de poder.

Se esta dualidade Draco x Harry permite o confronto entre amizade e submissão no aspecto pessoal, em um âmbito mais geral, diversas oposições guiam o desenvolvimento narrativo.  Consideremos as duas casas principais apresentadas: enquanto a Sonserina (grupo ao qual pertence a maioria dos antagonistas) é definida  pelo seu apresso aos direitos hereditários e a busca de poder, a Grifinória (casa da maioria dos protagonistas) é definida por sua coragem e ousadia.

Sendo a oposição o elemento que propicia o andamento da história a escolha das características do vilão é fundamental. Lord Voldemort surge neste contexto como uma antítese funcional, coerente e muito bem desenvolvida do herói. Partilha com este características como a falta de família e a descoberta de ser especial, enquanto diverge em aspectos tão fundamentais que chegam a ser quase complementares, como a busca do poder pelo medo, a negação da morte, o uso de qualquer meio para atingir seus fins, a procura pelo isolamento, e a rejeição da história pessoal, que em momentos decisivos são contrastados pelas atitudes tomadas por Harry Potter.

Um elemento narrativo básico que mantém crescente o interesse em toda a obra são as relações que encontramos entre os medos, alegrias, dúvidas, conquistas e decepções de vários personagens e de nós mesmos. As dificuldades de manter amizades, de ser acreditado, de dar os primeiros passos em uma relação romântica, de se sentir só, de lutar para ser aceito, de conseguir uma vitória ou ver seus esforços terminarem em derrota estão bem descritas ali.

Durante a saga, vários personagens permitem ao leitor evocar situações que estiveram presentes durante seu próprio desenvolvimento pessoal. Como não ter conhecido ao menos alguém que tenha algo da arrogância de Snape ou o convencimento vazio do Professor Lockhart? Como não ter visto alguém que se define pela sua estranheza como Luna  Lovegood? E como não sentir um pouco de pena da solidão que esta estranheza provoca?

Vários personagens cativantes são apresentados até o ultimo livro e acrescentam dinamismo à história e fazem querermos aprofundar um pouco mais no entendimento de cada um deles.

Aprofundar-se no entendimento é também uma força motriz durante o desenvolvimento das ações. Para entender seu mundo, para poder agir, Harry deve conhecer, deve procurar sempre os fatos que originaram as situações pelas quais passa. Nisto acaba descobrindo de coisas banais a conhecimentos dolorosos sobre si mesmo e sobre aqueles que idolatra. O mundo dos magos não é plano. E não é a toa, que quase sempre os personagens estão na escola, um espaço de descoberta e um cenário conhecido pelos leitores.

Os leitores de Harry Potter, em especial aqueles que leram a série a medida que os livros foram lançados, puderam senti-lo crescer enquanto eles próprios cresciam, adquiriram experiência juntos, como se um amigo estivesse partilhando sua história com eles. E os mais observadores puderam ver também o desenvolvimento da escrita de J. K Rowling.

A cada livro é notável o progresso que autora alcança. As cenas melhoram, cada livro vai apresentando seu tom e vai crescendo o equilíbrio entre as ações e a descrição das emoções. Mesmo capítulos mais engraçados apresentam outros sentimentos, assim como o humor está presente em momentos mais dramáticos de forma adequada.

Embora possam ser citadas elementos incômodos durante a narrativa, como o uso de deus ex machina (mas, poxa, estamos falando de uma historia de magos), algumas incoerências (onde estão os vira tempos quando….? Se a poção polissuco só dura uma hora então….? Por que a  poção Felix Felicis….?), e os longos diálogos expositivos, J. K. Rowling escreveu uma obra fluida que se torna uma leitura agradável capaz de nos levar a pensar, a procurar razões, a questionar a obra, a nos questionar e questionar nosso entorno. Isso vai depender de como o leitor encarará sua leitura, até onde ele pode e quer ir.

Sentados em nossas cadeiras terminamos de ler as últimas paginas destes sete longos livros. O feitiço foi realizado. As palavras foram ditas. Resta saber o efeito que nos fez.

por Rui Carodi

Resenha – O Caderno Azul

O Caderno Azul, de James A. Levine 

Minha mãe sempre me espancava porque minha resistência era grande demais. A palma vermelha de sua mão batia na minha cara com tal veemência que eu achava que podia quebrar meu pescoço. Antes de uivar de dor desses ataques frequentes, eu tentava reprimir o grito, porque queria fortalecer minha capacidade de morar dentro de mim mesma. Hoje em dia, os golpes não são com a mão de mamãe aberta e vermelha de hena, mas do bater dos quadris dos homens nos meus. Mas minha mãe me treinou bem, porque agora eu vivo dentro de mim.”

O romance de estréia do médico James A. Levine, embora fictício, revela nuances de uma realidade tão sórdida e cruel, que muitas vezes temos a sensação que a personagem extrapola as páginas do livro, dando voz a inúmeras crianças vítimas de exploração sexual.

A narrativa explora o cotidiano de Batuk, indiana que aos 9 anos foi vendida pelo próprio pai como escrava sexual. O destino da criança muda sensivelmente ao ser arrancada do convívio familiar em uma aldeia da Índia, para se submeter a todo tipo de ultraje e humilhação nas ruas de Bombaim, onde a prostituição ocorre escancaradamente.

Abusada física e psicologicamente, a adolescente presencia todo o tipo de miséria humana. Tendo a infância roubada e a existência reduzida a mero objeto de prazer, seu único alento está na posse e na escrita de um caderno azul, um misto de diário e refúgio. Nas páginas do caderno a garota registra com muita sensibilidade seus sonhos, devaneios, pensamentos, lembranças e a percepção de uma realidade difícil, mas suportável, à medida que as ações do cotidiano são revestidas de outros significados.

A delicadeza da capa contrasta com a estória triste, inquietante e repulsiva que se anuncia ao leitor. Confesso que em algumas partes da narrativa foi preciso autocontrole para não abandonar a leitura, não pela qualidade da escrita, mas pela aspereza do conteúdo. É doloroso pensar que um ser humano, sobretudo uma criança, tenha que se submeter aos caprichos de mentes perversas e doentias, e que esses abusos não dilaceram apenas o corpo, mas a alma.

Mas apesar do cenário triste e desolador, é uma história repleta significados belos e sutis, tais como a importância da amizade verdadeira, perceptíveis na cumplicidade que se estabelece entre Batuk e Punnet que compartilham as mesmas dores e sofrimentos, e especialmente o poder da imaginação para combater e afastar os males de uma realidade dura e cruel.

Não é o primeiro relato que aborda a fantasia como válvula de escape ou ponto de fuga em um mundo de horrores, em “A menina que roubava livros”, a leitura foi a “salvação” ou a fórmula encontrada pela personagem para suportar a uma realidade difícil.

A leitura e a escrita podem ser mais do que instrumentos para se adequar ao mundo, às vezes é um meio de fuga saudável, algo em que se apoiar para se manter vivo e lúcido!

Esse é o primeiro romance de James A. Levine, médico americano que em viagem a Ìndia se impressionou com uma jovem prostituta que escrevia absolutamente concentrada em um caderno. A cena o marcou tanto a ponto de escrever “O caderno azul”. 

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.