Uma ou duas palavras sobre: Envelhecer

“Será que todos percebem quando a gente faz trinta anos?” A mesma dúvida e raiva que eu tenho – quando, por educação, lembram-me que agora serei sempre nomeado de senhor –  foram expressadas por uma amiga há poucos momentos. O que me fez recordar que um assunto comum em vários escritores é o envelhecimento.

O primeiro texto que recordo é também o primeiro que li de Érico Veríssimo. No conto “Os devaneios do  General”, um militar vai se recordando amargamente de seu passado cruel enquanto observa sua influência na própria família se findar e sua dignidade se extinguir. O ponto triste e irônico é que os piores defeitos de uma geração parecem estar ainda nas posteriores e a alegria que resta é que a crueldade persiste.

Clarice Lispector também não apresenta uma velhice feliz. O aniversário de 90 anos de Zilda, no conto “Feliz Aniversário”, poderia ser a descrição de inúmeras reuniões obrigatórias de família onde o que menos importa é o que se pensa ou sente sobre o assunto da festa. E quando este não cumpre a risca seu papel premeditado um mal estar se instala. Seria a morte, como o conto parece propor, o segredo único que nos livra deste ciclo?

Os velhos dos livros de Jorge Amado parecem não concordar. Embora sem a energia que seus passados parecem conter, ainda tem na memória uma alavanca para permanecer socialmente ativos. Nem que seja uma memória inventada como no capitão de longo curso de “ Os Velhos Marinheiros”.

Mas se eu realmente pudesse recomendar um livro a minha amiga, que infelizmente agora não está para leituras, seria sem dúvidas um do Gabriel Garcia Marques. Não, não é “Memórias de Minhas Putas Tristes”, livro fino que fala de um velho que procura ter recuperada sua vida ao dormir com uma jovem. Não, o melhor livro seria “O Amor nos Tempos do Cólera”, cujo início nos faz pensar que veremos apenas mais uma história com personagens velhos, e depois, que leremos sobre um amor ridículo. Mas nada disto é verdade.

“Amor Nos Tempos do Cólera” nos apresenta duas vidas, com grandes toques de realidade, que se encontram e se afastam, vencem e perdem, mas que principalmente não desistem de viver. E que cada momento tem suas decisões, angústias e alegrias que merecem ser inteiramente vívidas.

Rui Carodi

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Leitora do Mês – Patrícia Lima

Patrícia

Foto: Arquivo Pessoal

Patrícia Souza de Lima

26 anos

Bióloga, Escritora, Servidora do Recursos Humanos da FAAC

O que você está lendo atualmente? Está gostando?
Estou lendo Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, e estou gostando bastante.

Gênero literário preferido?
Prefiro os enredos dramáticos, que envolvem reflexões filosóficas; mas não me importo em ler coisas mais leves. Também gosto muito de poesia (principalmente brasileira), e biografias.

Na sua estante não pode faltar…
Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Pablo Neruda, Lygia Fagundes Telles.

Se pudesse viver dentro de um livro, qual seria?
Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, da Clarice Lispector. Este livro tem um quê de liberdade, algo de encontrar-se consigo mesmo através da descoberta do amor… É algo realmente tocante.

Se fosse que indicar um livro, qual seria e por quê?
A trégua, de Mário Benedetti. Li há pouco tempo e praticamente o engoli. Acho que, apesar de escrito há algumas décadas, traz a tona relações totalmente condizentes com os tempos atuais. E é interessante que dentro de um contexto nada romântico, onde o protagonista é um funcionário público, tradicional, cuja vida nunca foi de mudanças bruscas ou experimentações; as personagens envolvidas desvendam muitas coisas sobre a vida. É um livro sobre felicidade, que não soa clichê exatamente por ser muito real.

Um personagem marcante…
Quincas Borba, personagem que aparece em Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, ambos de Machado de Assis.

Dizem que os livros mudam as pessoas, algum livro mudou o seu ponto de vista?
Sim, costumo dizer que Memórias Póstumas de Brás Cubas me iniciou à literatura de fato, porque a partir do choque causado por ele, me tornei uma pessoa bem mais crítica e interessada pelas pessoas, relações, sociedade.

Há algum livro que você já tenha relido algumas vezes e cada vez percebe uma coisa nova?
Sim, o próprio Memórias Póstumas…, e também um livro do Mário de Andrade chamado Contos Novos, de que gosto muito.

Com que personagem fictício você se identifica?
Com muitos, mas o primeiro que me veio à cabeça é o personagem principal de Uma questão de Moral, da Patricia Highsmith. Não me lembro do nome dele agora, mas trata-se de um jovem cheio de vigor e ideais, ingressante na carreira científica, que possui uma relação contrastante com seu pai religioso; e em muitos trechos eu enxergava minha relação com meu próprio pai.

Se tivesse o poder de mudar a vida de algum personagem qual seria e por quê?
Mudaria a vida de Avellaneda, de A Trégua.

Alguém a influenciou a ler? Como começou a gostar de ler?
Meus pais são pessoas simples e dentro de casa nunca houve muito incentivo, fui influenciada na escola mesmo.

Algum livro já a fez chorar?
Sim, muitos me emocionam. Há pouco tempo chorei como uma criança ao ler o primeiro conto do livro Réveillon e outros dias do jovem escritor Rafael Gallo; também dei uma boa lacrimejada no final do Albatroz Azul, de João Ubaldo Ribeiro.

Já teve uma decepção literária?
Já tive, mas não me lembro de qual agora. Os últimos livros lidos me agradaram bastante.

Aqui no blog, todo mês há um novo leitor do câmpus respondendo a perguntas relacionadas às suas preferências de leitura. Se você gostaria de ser o próximo leitor do mês, ou gostaria de sugerir alguém para estar aqui, mande um e-mail para camila@bauru.unesp.br

Clube da Leitura – Clarice Lispector

“Outra coisa que não parece ser entendida pelos outros é quando me chamam de intelectual e eu digo que não sou. De novo, não se trata de modéstia e sim de uma realidade que nem de longe me fere. Ser intelectual é usar sobretudo a inteligência, o que eu não faço: uso é a intuição, o instinto. Ser intelectual é também ter cultura, e eu sou tão má leitora que agora já sem pudor, digo que não tenho mesmo cultura. Nem sequer li as obras importantes da humanidade. 
[…] Literata também não sou porque não tornei o fato de escrever livros ‘uma profissão’, nem uma ‘carreira’. Escrevi-os só quando espontaneamente me vieram, e só quando eu realmente quis. Sou uma amadora?
       O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”

Clarice Lispector, sobre a recusa em ser chamada de intelectual.

Amanhã, dia 10, às 15 horas, no auditório da biblioteca, Clarice Lispector é o tema da reunião do Clube da Leitura. Todos estão convidados para discutir livremente a obra da autora.

Quem quiser saber mais sobre Clube de Leitura, pode conferir esse post.