EXPERIÊNCIA DE LEITURA: O LIVRO AMARELO DO TERMINAL

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É difícil escrever sobre um livro que pessoalmente conseguiu me agradar tanto, mas que sei que apresenta várias características que afastam sua leitura. Vanessa Barbara em seu segundo livro, conseguiu fazer um livro múltiplo e extremamente diferente.

A começar pela escolha do tema. É uma reportagem focada não em um protagonista e, sim, no maior terminal rodoviário da América Latina. A partir disto, várias histórias são contadas. Percorrem a página frequentadores assíduos, motoristas, burocratas, figuras históricas, funcionários, vendedores, anônimos, e a própria narradora.

A narração é complementada ou interrompida por poemas, citações, recortes de jornais, folhetos, etc. Tudo isto ajudando a criar o clima de caos organizado que se encontra no Terminal Tietê.

Além disto o projeto gráfico do livro não é algo a parte. Ele é um elemento importante para a comunicação dos relatos que estão sendo narrados.

A autora é muito competente em apresentar o relato que ela coletou (foram 12 meses só de pesquisa e quase cinco anos até o termino) no momento certo dando coerência mas não tirando totalmente o sentimento de desorganização que se vê em locais muito aglomerados.

O livro apresenta desde uma narração de um incidente envolvendo velhos amigos que se conhecem a tanto tempo que já esqueceram o nome do outro e só sabem o apelido até a historia completa da politica envolvida na construção e manutenção do próprio terminal (usando para isto reportagens de época). Em suma é como um banquete de histórias em que são servidas as mais diversas iguarias para que o próprio leitor possa decidir o que lhe agrada mais.

Eu pessoalmente devo dizer que adorei os capítulos onde a própria Vanessa Barbara é personagem e é contado a interferência da burocracia no trabalho, demonstrando assim como este sistema é estúpido e ineficiente. Outro capitulo interessante é dedicado aos folhetos achados na estação pois dá a ideia da cacofonia cotidiana que lá se encontra.

Um livro belo em vários sentidos que dá ao leitor experiente um sopro de novidade e interesse, mas que depende muito de como o leitor o encara. Exige que haja imersão e imaginação para completar os pedaços de historia que estão escritos. Ou seja, como na vida em que o interesse é que determina quais são narrativas que vai gostar de ouvir.

Rui Carodi.

PS. A foto do livro foi retirada do blog da editora, deste post:  http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=14646

Resenha – O Caderno Azul

O Caderno Azul, de James A. Levine 

Minha mãe sempre me espancava porque minha resistência era grande demais. A palma vermelha de sua mão batia na minha cara com tal veemência que eu achava que podia quebrar meu pescoço. Antes de uivar de dor desses ataques frequentes, eu tentava reprimir o grito, porque queria fortalecer minha capacidade de morar dentro de mim mesma. Hoje em dia, os golpes não são com a mão de mamãe aberta e vermelha de hena, mas do bater dos quadris dos homens nos meus. Mas minha mãe me treinou bem, porque agora eu vivo dentro de mim.”

O romance de estréia do médico James A. Levine, embora fictício, revela nuances de uma realidade tão sórdida e cruel, que muitas vezes temos a sensação que a personagem extrapola as páginas do livro, dando voz a inúmeras crianças vítimas de exploração sexual.

A narrativa explora o cotidiano de Batuk, indiana que aos 9 anos foi vendida pelo próprio pai como escrava sexual. O destino da criança muda sensivelmente ao ser arrancada do convívio familiar em uma aldeia da Índia, para se submeter a todo tipo de ultraje e humilhação nas ruas de Bombaim, onde a prostituição ocorre escancaradamente.

Abusada física e psicologicamente, a adolescente presencia todo o tipo de miséria humana. Tendo a infância roubada e a existência reduzida a mero objeto de prazer, seu único alento está na posse e na escrita de um caderno azul, um misto de diário e refúgio. Nas páginas do caderno a garota registra com muita sensibilidade seus sonhos, devaneios, pensamentos, lembranças e a percepção de uma realidade difícil, mas suportável, à medida que as ações do cotidiano são revestidas de outros significados.

A delicadeza da capa contrasta com a estória triste, inquietante e repulsiva que se anuncia ao leitor. Confesso que em algumas partes da narrativa foi preciso autocontrole para não abandonar a leitura, não pela qualidade da escrita, mas pela aspereza do conteúdo. É doloroso pensar que um ser humano, sobretudo uma criança, tenha que se submeter aos caprichos de mentes perversas e doentias, e que esses abusos não dilaceram apenas o corpo, mas a alma.

Mas apesar do cenário triste e desolador, é uma história repleta significados belos e sutis, tais como a importância da amizade verdadeira, perceptíveis na cumplicidade que se estabelece entre Batuk e Punnet que compartilham as mesmas dores e sofrimentos, e especialmente o poder da imaginação para combater e afastar os males de uma realidade dura e cruel.

Não é o primeiro relato que aborda a fantasia como válvula de escape ou ponto de fuga em um mundo de horrores, em “A menina que roubava livros”, a leitura foi a “salvação” ou a fórmula encontrada pela personagem para suportar a uma realidade difícil.

A leitura e a escrita podem ser mais do que instrumentos para se adequar ao mundo, às vezes é um meio de fuga saudável, algo em que se apoiar para se manter vivo e lúcido!

Esse é o primeiro romance de James A. Levine, médico americano que em viagem a Ìndia se impressionou com uma jovem prostituta que escrevia absolutamente concentrada em um caderno. A cena o marcou tanto a ponto de escrever “O caderno azul”. 

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

Resenha – Pequenas Epifanias

Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu

“A perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)  – mas a morte é inevitável, e portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS  de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não se ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo – porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER”.


Você pode até não gostar de literatura, mas é improvável não ter tido contato com algum fragmento da obra de Caio Fernando Abreu, jornalista, escritor e por que não dizer poeta do cotidiano? Assim como Clarice Lispector, lidera o número de citações compartilhadas entre os usuários das redes sociais, e sua popularidade cresce à medida que outras gerações se aproximam de suas reflexões, que circulam livremente e amplamente no ciberespaço.

Devo confessar que as narrativas do escritor sempre me comovem, e em “Pequenas epifanias” não foi diferente.  O livro reúne crônicas que datam de 1986 a 1995 e abrange um período delicado da vida do autor, pouco antes de sua prematura morte em 1996. Talvez seja por esse motivo que os relatos refletem tanto a condição existencial do ser humano, as inquietações e as angústias que permeiam a trajetória de vida e o fim iminente: a morte.

Na minha opinião, o título revela a essência contida em todas as crônicas, ou seja, os pequenos “milagres” e “mistérios” do cotidiano, manifestações corriqueiras dotadas de possibilidades de entendimento do ser e da vida. “Epifania é a expressão religiosa empregada para designar uma manifestação divina. Por extensão é o perceber súbito e imediato de uma realidade essencial, uma espécie de iluminação”.

De modo geral, o homem está fadado a sua rotina particular, e a regularidade das ações tende a ocultar ou minimizar o significado das coisas, a descoberta e o entendimento de verdades ocultas em realidades explícitas.

Romântico e delicado, visceral e impiedoso, engraçado e irônico, assim é Caio F. em suas narrativas e talvez o segredo para a construção de textos tão irresistíveis esteja justamente na transição repentina de humores e olhares, mesclando momentos de extrema lucidez e pura divagação.

Ri com a crônica “Deus é naja”. “Estás desempregado? Teu amor sumiu? Calma: sempre pode pintar uma jamanta na esquina”. Humor dark sim, mas é daí?  O importante é não perdê-lo. “[..] esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feio idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada”.

Em “A mais justa das saias” é possível regredir no tempo e vivenciar o período de medo e confusão social com o surgimento da AIDS, a falta de informação que propagava todo o tipo de absurdo e preconceito, ao que o autor desabafa “Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus – a AIDS psicológica. Do corpo, você sabe, tomados certos cuidados, o vírus pode ser mantido à distância. E da mente? Por que uma vez instalados lá, o HTLV-3 não vai acabar com as suas defesas psicológicas, mas com suas emoções, seu gosto de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se”.

Dentre tantas crônicas, um destaque aos “Extremos da paixão” e a problemática do amor, “Pálpebras de neblina” e a desolação da prostituta comparada a descrença no Brasil, “Quando setembro vier” e a invenção de um mundo cor de rosa, “Agostos por dentro” e a consciência de não pertencer a um contexto.

Um livro para ser digerido aos poucos, indicado pra quem gosta de leituras breves, mas não superficiais, um convite ao pensamento e à reflexão da vida e do cotidiano passado, presente e futuro.

Caio Fernando Abreu nasceu em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, em 1948 e morreu de Aids em Porto Alegre em 1996. Em 1968 mudou-se para São Paulo e começou a trabalhar na grande imprensa. Morou ainda no Rio de Janeiro, Estocolmo e Londres, publicou 11 livros, tendo sido premiado duas vezes com o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Dentre os títulos podemos citar: “Morangos mofados”, “Limite branco”, “O ovo apunhalado”, “Os dragões não conhecem o paraíso”, “Triângulo das águas”, “Pedras de Calcutá”, entre outros.

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

Resenha – Queria que você estivesse aqui

Queria que você estivesse aqui, de Francesc Miralles

“Queria que você estivesse aqui.
Somos apenas duas almas perdidas
Nadando em um aquário,
Ano após ano
Fazendo a mesma velha rota.
O que encontramos? Nossos medos de sempre
Queria que você estivesse aqui”

(Pink Floyd, Wish You Were You)

Não é por acaso que o título desta canção figura em destaque na capa do livro. No início não dei muita importância, mera coincidência, só depois compreendi que o autor talvez tivesse se inspirado na letra para compor a trama. Ausência e abandono assombram a vida amorosa de Daniel, conceituado arquiteto de Barcelona, que no auge da carreira e prestes a se casar recebe um golpe capaz de desestruturar por completo sua planejada e equilibrada rotina.

Imagine ser abandonado pela noiva em plena festa de aniversário, como se não bastasse, some a esse episódio ser substituído pelo seu melhor amigo. A festa de aniversário teria tudo para se transformar em uma festa de horrores se não fosse por um único detalhe, o presente recebido pela amiga Marta. O CD intitulado “Queria que você estivesse aqui”, interpretado pela cantora francesa Eva Winter, parecia retratar em cada melodia a trajetória de sua vida. Alimentando sua melancolia ao som dos acordes tristes, e intrigado com a misteriosa cantora que parece conhecer em minúcias sua vida, Daniel toma uma decisão no mínimo inusitada, parte a Paris na tentativa de desvendar esse enigma.

A aproximação da cantora é absolutamente desastrosa, além de ser confundido com um maníaco que a persegue, a decepção de Daniel é imensa ao constatar que a Eva da vida real não passa de uma jovem insegura e desafinada, que ao invés de se apresentar em grandes concertos promove um vexame musical a meia dúzia de pessoas.

Resoluto em sua missão, o arquiteto vivencia inúmeras aventuras na Cidade Luz, além de se deparar com um novo mistério envolvendo o livro “O jardim secreto” e a personagem Mary, encarnada por uma misteriosa mulher. Nesse emaranhado de acontecimentos, Daniel vai “entender que uma linha reta não é a distância mais curta entre dois pontos. Há destinos na vida que exigem longos rodeios, uma habilidade especial para evoluir em círculos até encontrar a entrada para um mundo que está dentro deste, mas até então você não conhecia.”

Uma prosa irresistível, ao ritmo de uma divertida comédia romântica. Leitura despretensiosa e recheada de referências musicais e literárias, super-recomendado a leitores sensíveis em busca de um passatempo leve e delicado.

Francesc Miralles, nasceu em Barcelona, formado em filologia alemã, além de escrever regularmente artigos sobre psicologia e espiritualidade, publicou vários livros juvenis e de viagens. É autor do elogiado “Amor em minúscula”.

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

Resenha – Indignação

Indignação, de Philip Roth

“Cresci cercado de sangue e sebo, afiadores de facas, máquinas de fatiar e dedos amputados em parte ou por inteiro nas mãos de meus três tios, assim como na de meu pai – e jamais me acostumei com isso, jamais gostei disso […] Como ateu, presumi que na vida após a morte não haveria um relógio, um corpo, um cérebro, uma alma, um deus – nada, em qualquer forma ou substância, a decomposição reinando absoluta. Não sabia que existia a lembrança e muito menos que a lembrança seria tudo”


Não consigo imaginar título mais adequado. “Indignação” – breve, intenso e incômodo, assim como o enredo. Esse sentimento que acompanha o personagem durante várias passagens da sua vida, também foi o meu ao término da leitura. Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário, envolve a ponto de provocar raiva, tristeza, solidariedade, e é claro, indignação. Apesar da morte anunciada logo no início da narrativa, confesso que fiquei frustrada, esperava um fim menos trágico. Se a intenção do autor era impactar o leitor, devo dizer que cumpriu com maestria o seu papel.

A trama se passa em 1951, período em que os Estados Unidos estão em Guerra com a Coréia. Marcus, o jovem desafortunado, é filho de um açougueiro, rapaz simples e de origem judia, divide o tempo entre o estudo, o trabalho e a prática de esportes. Assim como a maioria dos jovens, deposita nos estudos a única esperança de escapar de um destino implacável, cruel e previsível à maioria dos indivíduos com a sua condição étnica e social: assumir o ofício do patriarca ou ser recrutado na Guerra.

O primeiro membro da família Messer a ingressar na universidade, Marcus é o orgulho dos pais, mas também o responsável por desencadear uma crise familiar. O excesso de zelo do pai, que teme pelos perigos que a vida adulta pode representar ao filho, acua e sufoca o adolescente. Por fim, ele decide fugir do controle absurdo matriculando-se em uma universidade distante de casa. Essa decisão transforma drasticamente sua vida.

A convivência forçada e pouco amistosa com os companheiros de quarto, as constantes humilhações vivenciadas no trabalho, o envolvimento com Olívia, garota que apresenta um comportamento destoante para a época e a perseguição por parte do diretor são alguns dos obstáculos que ele deverá superar. Em meio a conflitos, Marcus sentirá o peso da intolerância e do desrespeito, lutando inclusive com os próprios preconceitos.

Ao conhecer Olívia, com quem teve sua primeira experiência sexual, ele fica dividido, deseja assumir a garota, mas ao mesmo tempo está assustado, além de ostentar uma cicatriz no pulso, resultante de uma tentativa de suicídio mal sucedida, a jovem se entrega aos seus desejos do corpo, o que é severamente condenado pela sociedade.

Além disso, trava uma luta com o diretor da universidade, sujeito arrogante que se sente no direito de interpelá-lo por considerar as ações do jovem uma afronta ao sistema adotado na universidade. Marcus prefere o isolamento às relações hipócritas e superficiais estabelecidas pela maioria dos estudantes, tudo o que ele desejava era que o deixassem em paz.

Mas na tentativa de esquivar-se dos problemas ele os atrai em proporções cada vez maiores. Talvez o esgotamento por tantas fugas e a constante opressão o transforma em um sujeito cheio de ira. Inconformado com a conduta intransigente do diretor, que não satisfeito com suas boas notas, tenta confrontá-lo, Marcus sela seu destino ao “vomitar” toda a sua indignação. Como julgá-lo? Difícil manter-se calado diante de tanto abuso e desrespeito. Ninguém deve ser condenado ou julgado simplesmente por não seguir a massa, por pensar diferente ou por agir conforme os seus princípios, dispensando a cartilha escrita por um opressor, esteja ele representado pela figura de um pai, diretor, ou quem quer que seja. Fugir dos problemas ou enfrentá-los, qualquer que seja a decisão demanda coragem. Coragem pra assumir as consequências, que injustas ou não, uma hora se apresentam.

Marcus poderia ter um destino diferente, mas suas decisões mudaram o rumo da sua história. Estamos condicionados às nossas escolhas, que, por mais banais que possam parecer, são determinantes para o nosso sucesso ou fracasso. Apesar de tudo não considero Marcus um personagem covarde ou inconsequente, apenas um sujeito comum que não desejava outra coisa senão seguir o seu próprio caminho, mas foi afugentado, influenciado e condenado por mentes conservadoras e tacanhas.

Interessante destacar que o primeiro capítulo do livro se intitula “Sob o efeito da Morfina” o que já anuncia a morte prematura do personagem. A primeira parte é escrita em primeira pessoa, aparentemente o próprio Marcus torturado pelas lembranças de sua breve vida. Ao término quem assume a tarefa é um narrador, atestando a morte do personagem. Apesar de triste, um livro belo à sua maneira.

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

Resenha – De veludo cotelê e jeans

De veludo cotelê e jeans, de David Sedaris

“Fiquei obcecado com Philip, que era bibliotecário numa faculdade, em algum lugar do Meio-Oeste. “Ele é tão parecido com você”, dizia minha mãe. “Adora ler. Ama os livros”. Eu não adorava ler tanto assim, mas tinha convencido minha mãe do contrário. Quando ela me perguntava o que eu tinha feito a tarde inteira, eu nunca respondia “Ah, estava me masturbando”, ou “Imaginando como o meu quarto ficaria pintado de vermelho”. Sempre dizia que tinha passado a tarde lendo, e ela sempre acreditava. Nunca me perguntava o nome do livro, nem onde eu tinha conseguido, só respondia “Ah, que bom”.”

A leitura da crônica autobiográfica me rendeu boas risadas, com estilo ácido e jocoso o autor nos faz mergulhar nas excentricidades de sua família, não nos poupando dos detalhes mais sórdidos. É como se você estivesse olhando pelo buraco da fechadura ou revirando as gavetas de uma família aparentemente normal, mas que oculta comportamentos absurdos e pouco louváveis.

David Sedaris nos presenteia com uma infinidade de situações hilárias, desde o jogo de strip poker com os garotos do bairro e a dificuldade em disfarçar a excitação ao vê-los nus, até os fatos mais bizarros vivenciados na fase adulta, quando ao visitar a irmã é obrigado a faxinar o apartamento, tamanha imundice e desordem do lugar.

Revelando a sua condição homossexual, o autor expõe completamente a sua intimidade, compartilhando suas neuroses e inseguranças.  Com uma pitada de humor, sarcasmo e autodepreciação nos faz rir e nos comover com os seus relatos pessoais.

As esquisitices que rondam a família são esmiuçadas em detalhes. Os pais são propensos à ostentação e vivem em constante fuga da realidade. Os irmãos protagonizam cenas surreais, tal como a irmã que aos catorze anos coloca aparelho nos dentes e tenta arrancá-los com um alicate, ou o irmão que devora os alimentos congelados direto da embalagem, comendo com prazer os restos da lata de lixo.

A rotina e o cotidiano da família são descritos sem pudores e sem monotonia, envolvendo o leitor em acontecimentos esquisitos e engraçados.  Leitura mais que recomendada aos apreciadores de relatos breves, leves e divertidos.

David Sedaris é um dos maiores humoristas americanos da atualidade e autor dos livros “Pelado”, “Eu falar bonito um dia” e “Engolido pelas labaredas”, crônicas similares, que reúnem os fragmentos do cotidiano pessoal e familiar. Como o autor se descreve em uma das passagens do livro. “Na minha cabeça, sou como um lixeiro amigável, construindo coisas a partir de pequenos fragmentos que recolho aqui e ali, mas minha família começou a ver as coisas de outra maneira. Os tais pequenos fragmentos que recolho com ar descuidado são suas vidas pessoais, e eles estão ficando fartos. Cada vez mais, as histórias que me contam iniciam sempre com o frase “Você precisa jurar que nunca vai passar isso adiante”. Eu sempre juro, mas todo mundo já sabe que minha palavra não significa nada”.

Eu o definiria como um fofoqueiro do bem, se é que isso é possível…

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.

Resenha – A solidão dos números primos

A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

“Os anos de colégio foram como uma ferida aberta, que pareceu tão profunda a Alice e Mattia a ponto de nunca mais poder cicatrizar. Atravessaram aquele período em apnéia, ele recusando o mundo, ela sentindo-se recusada pelo mundo, e perceberam que não fazia grande diferença. Tinham construído uma amizade defeituosa e assimétrica, feita de longas ausências e muito silêncio, um espaço vazio e limpo em que ambos podiam voltar a respirar, quando as paredes de escola ficavam muito próximas, para ignorar o sentimento de sufocamento.”

Foi amor à primeira vista! Sei que não se deve julgar o livro pela capa, mas em algumas ocasiões é quase impossível resistir. Confesso que com “A solidão dos números primos” não tive dúvidas na escolha, a delicadeza da imagem e a sutileza do título representaram a promessa de uma história envolvente. Uma obra poética, intensa e comovente, onde beleza e dor ocupam o mesmo espaço. No romance, a solidão é fio condutor dos encontros e desencontros protagonizados por Alice e Mattia.

Vidas paralelas que se aproximam no deslocamento e desajuste com o mundo. Na infância uma tragédia particular marca o corpo e a mente de ambos. Mattia convive com a culpa por ter abandonado a irmã gêmea, sendo que o desaparecimento da criança desencadeia no garoto um comportamento arredio e autodestrutivo. Alice, após sofrer um acidente de esqui que a deixa manca, tenta disfarçar a insegurança e esconder da família a anorexia. Ela se refugia na fotografia e ele na matemática. Ela tenta se ajustar ao mundo enquanto ele recusa qualquer tentativa de adaptação. No desvio de interesses, o encontro e o reconhecimento.

“Porque Alice e Mattia estavam unidos por um fio elástico e invisível, encoberto por um monte de coisas sem importância, um fio que podia existir apenas entre pessoas como eles: dois que reconhecem a própria solidão, um no outro”. Dos tempos de colégio à vida adulta estabelecem uma relação bastante singular. Parceiros, mas incapazes de transpor a barreira oculta que os separa, tal como os números primos. “Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade”.

A base da relação é também o seu ponto frágil, o isolamento social e a vulnerabilidade emocional que os aproxima também representa a maior lacuna no relacionamento. No cenário desfilam personagens complexos, mas que são facilmente identificados em nosso cotidiano, indivíduos que apesar da aparente estabilidade e auto-suficiência muitas vezes ocultam traumas que causam desconforto, sofrimento e dor. Basta observar: vivem em desacordo com o mundo e consigo mesmo, em permanente estado de fuga, são muitas vezes negligenciados pela família, invisíveis e indiferentes à sociedade.

A narrativa apresenta a evolução cronológica dos personagens: infância, adolescência e juventude (1987-2007), bem como as dificuldades, as angústias e o sentimento de inadequação que os acompanha em cada fase. Uma história triste, mas bela. Não recomendado aos fãs de contos de fadas. Paolo Giordano impressiona em sua estréia como escritor, usando a matemática como metáfora da vida, e desenvolve um relato extremamente sensível. O autor foi aclamado pela crítica e conquistou importantes prêmios literários na Itália. Em 2010 a história foi adaptada para o cinema com o mesmo título. Agora é correr pra locadora e conferir!

por Lucilene Messias

Dedicado aos amantes de literatura, o Blog da Biblioteca da Unesp, estréia no mês de março uma sessão mensal de resenhas literárias, com o objetivo de divulgar o acervo de literatura da biblioteca. De modo simples e despretensioso, apresenta uma visão ou impressão particular, ausente de qualquer corrente teórica. A resenha é assinada por uma bibliotecária que tem paixão por livros e que acredita que a leitura deve ser uma prática prazerosa e livre de qualquer preconceito. Pretendemos estimular a leitura e não uma “lei dura” que rotula, veta ou autoriza determinadas leituras. É um espaço livre que estimula o diálogo, respeitando a oposição de idéias.